03 A Língua Latina estudada com a Internet

BIBLIOGRAFIA. A GENERAL BRAZILIAN BIBLIOGRAPHY FOR THE STUDY OF THE LATIN LANGUAGE

Esta bibliografia disponibiliza para downloads dicionários e as principais obras didáticas utilizadas no Brasil, para o ensino do Latim, em português e noutros idiomas europeus. Dictionaries and textbooks used in Brazil for teaching Latin.

http://archive.org/search.php?query=creator%3A%22DARCY%20CARVALHO%22&sort=-downloads


IMERSÃO IMEDIATA E TOTAL NA LÍNGUA LATINA PELA INTERNET. SITES, TEXTOS, TRADUÇÕES, OBRAS COMPLETAS EM LATIM ESTÃO DISPONÍVEIS  NA INTERNET PARA ESTUDO  OU  PESQUISAS SOBRE A LÍNGUA LATINA

Poucas línguas existem hoje no mundo que possam ser comparadas à língua latina em termos de importância cultural , científica e acadêmica. Isto fica evidente,, mais claro que a luz,  clarius luce, se considerarmos a surpreendente e inacreditável quantidade de material didático e científico, escrito em Latim, que está sendo recuperado do sono e do esquecimento dos séculos e liberalmente disponibilizado, na internet, pelo Google, pelo Archives.Org , pelas principais bibliotecas do mundo, pelas maiores universidades dos cinco continentes,

Este material precioso e sua imediata acessíbilidade para leitura ou download, sem custo algum para os usuários, é que nos fortalece na crença de que poucas línguas cultas do mundo igualem atualmente o idioma latino em importância cultural, acadêmica, histórica e científica.

Este reconhecimento nos obriga também a seriamente repensar o conteúdo e os métodos de ensino dos cursos remanescentes de Latim, que,  juntamente com os de Grego clássico, vem sendo sistematicamente suprimidos em todos os países, graças à inércia de um movimento retrógrado iniciado muitos anos antes de existir a internet, com sua revolução cultural e pedagógica.

A supressão dos cursos de Latim e Grego são agora injustificáveis, contudo vem sendo tolerada, sem reação moral nem atitudes práticas, até pelas comunidades acadêmicas que deveriam reagir para sustá-la.

Neste espaço,  gostaria de expor algumas idéias acerca da língua latina, e sobre formas alternativas de abordar o seu estudo, na convicção de que o Latim é um instrumento acessível e poderoso de cultura, que não pode ficar restrito ao âmbito e objetivos especiais dos cursos de letras, por mais legítimos que sejam. O Latim que neles se ensina é o clássico, para fins filológicos e com o objetivo teórico de capacitar os alunos à leitura dos autores, escritores e poetas, do século de Augusto. Como os objetivos dos cursos oficiais de Latim são estes, estudar exclusivamente autores clássicos do primeiro e segundo séculos da Era Cristã,  tudo que vem antes é acoimado de arcaico e o que vem depois, de vulgar, bíblico, decadente, medieval, eclesiástico, baixo e bárbaro

Por coincidência o século do Imperador Augusto também viu o inicio do Cristianismo, que se propagou pelo império, junto com outras religiões e cultos orientais, então, em grande voga. No intuito de propagar a nova religião entre as massas romanas iletradas, fazem-se traduções dos textos hebraicos e gregos para a língua latina do povo. Estes textos ainda entre nós comprovam a artificialidade da língua latina clássica, praticada pela elite culta do império.

Possivelmente o Latim clássico não era entendido pelo povo, se o fosse teria sido utilizado desde o início da igreja cristã, e não só posteriormente quando a igreja cooptou também as classes superiores do império. Primeira conclusão de ordem prática: o Latim clássico, objeto exclusivo dos chamados cursos de Latim entre nós, é um dialeto especial do Latim para uso das classes superiores romanas, que eram bilíngues em grego e vernáculo.

Esta forma literária extinguiu-se por volta do ano 200 D. C . Mas o Latim normal, popular, coloquial, sobreviveu por mais 1800 anos, chegando até nós na forma de línguas neolatinas. O Latim escrito com características clássicas continuou a ser usado normalmente por séculos depois do ano 500, época da compilação, em Bizâncio, do Codex Juris Civilis, que coincide com o fim do Império Romano do Ocidente e o início da Idade Média.

Com o sisma católico, o grego passa a ser a lingua exclusiva do Oriente e o Latim a língua única escrita do Ocidente, corrompendo-se, ou melhor, modificando-se progressivamente até cerca de 1300, quando se reativam e intensificam-se os contatos culturais com o Império Romano do Orienta, por via dos Cruzados, e de Veneza, centelha que deflagra a Renascença, como consequência da redescoberta e reestudo dos clássicos romanos.

Neste ponto longínquo, a despeito de forte reação contrária e violenta de muitos, como Poggio Bracciolini, nasce com Lorenzo Valla o culto e a religião do Latim clássico, que pervade nossas faculdades de letras até hoje.

A tentativa de ensinar Latim clássico nos cursos introdutórios fracassa por ser irracional e antipedagógica, ao se propor objetivos inalcansáveis. A solução seria ensinar Latim como língua moderna, como instrumento útil para a comunicação e utilização imediata na área acadêmica: Latim clássico, morfologicamente, conservando intactas suas declinações e conjugações, inclusive os verbos deponentes, mas sintaticamente semelhante aos idiomas neolatinos, isto é escrito in ordine recta vel soluta, com um vocabulário amplo adequado ás contingências e circunstâncias do mundo moderno atual.

Dominada em dois meses esta forma operacional de escrever em Latim, poder-se-ia ter acesso a toda a produção escrita em língua latina nos últimos 2500 anos , cultivando-se o clássico como especialização superior, mas não como paradigma absoluto do escrever em Latim. Neste procedimento de aprendizagem, a gramática latina clássica permanece a mesma, porque não há outra, e foi honrada por todos os escritores, nestes dois últimos milênios. O objetivo da aprendizagem, porém , não será o de ler somente o Latim dos clássicos. Queremos começar a ler imediatamente o Latim posclássico, o Latim medieval, o neoLatim, o Latim eclesiástico e o Latim moderno, e principalmente, desde o início, escrever em Latim.

Dizia um celebrado retórico antigo que uma coisa é escrever gramaticalmente, obedecendo a gramática, e outra escrever latinamente, isto é, em elevado estilo , retórico, poético e artístico. È possível escrever Latim gramaticamente em pouquissimo tempo, e desta forma aprender a ler Latim, qualquer Latim. Escrever latinamente, isto é, em puro estilo clássico, só pode ser conseguido depois de muitos anos ou nunca.

Apliquei este metodo novo de aprendizagem a mim mesmo e aprendi sozinho, sem professor, a escrever Latim, gramaticalmente, e sem dicionários, conforme nos aconselham os pesquisadores medievalistas, e encontro facilidade cada vez maior em ler e escrever sem uso constante ou quase sem utilizar dicionários.

Nesta empreitada de recuperar o uso do Latim como instrumento auxiliar de pesquisa acadêmica temos quatro problemas a considerar:

1. O problema da leitura e das pronúncias do Latim, a eclesiástica, a restaurada e a tradicional;

2. o problema do vocabulário, uma vez que nenhum dos dicionários latinos disponíveis, nem os escolares, nem os maiores, contém os vocábulos de que necessitamos para tratar de assuntos contemporâneos , em qualquer área;

3. o problema da aprendizagem da gramática latina , que neste método se resume basicamente a conhecer a morfologia da língua latina clássica, dispensando-se porém a sua sintaxe, pela adoção do modo românico moderno de escrever, escrevendo-se o Latim com a mesma sintaxe dos grandes idiomas europeus;

4. o acesso às fontes de textos do nosso interesse, filosóficos, jurídicos, econômicos, históricos , filológicos, literários e cientificos. Este problema do acesso a textos já está solucionado pela internet, como veremos a seguir:

A internet , milagre tecnológico recente, nos permite renovar o estudo de todas as linguas estrangeiras e não só o do Latim. E o idioma latino tem sido estudado na internet nas principais linguas do mundo. Já dispomos também de uma enciclopedia em Latim a Vicipaedia, da qual podemos usufruir e com a qual eventualmente podemos colaborar, escrevendo ou fazendo upload de textos.

No estudo do Latim cada área escolherá os seus autores e sobre eles desenvolverá os seus esforços. Filósofos como Descartes, Bacon, Spinoza são autores que podemos ler ou obter por download no site The Latin Library [Neo-Latin] , site que está dividido em duas partes, uma para autores clássicos , outra para os modernos. Vide: http://www.thelatinlibrary.com/ , que contém os autores clássicos mais utilizados nos cursos tradicionais de Latim e http://www.thelatinlibrary.com/neo.html , que contem só autores modernos nunca mencionados nesses cursos..

Mais de 40000 textos latinos de alto interesse, renascentistas e posrenascentistas, podem ser facilmente localizados, consultando-se a bibliografia on-line ´An analytic bibliography of on-line neo-latin texts, by DANA F. SUTTON, Professora na University of California, Irvine, disponível no site http://www.philological.bham.ac.uk/bibliography/

Escreve Sutton: `The enormous profusion of literary texts posted on the World Wide Web will no doubt strike future historians as remarkable and important. But this profusion brings with it an urgent need for many specialized on-line bibliographies. The present one is an analytic bibliography of Latin texts written during the Renaissance and later that are freely available to the general public on the Web. This page was first posted January 1, 1999 and most recently updated on July 15, 2012 . The reader may be interested to know that it currently contains 42,485 records`.

Tradução: A enorme profusão de textos literários postados na World Wide Web impressionará sem dúvida os futuros historiadores, como um evento notável e importante. Todavia, esta mesma profusão cria a necessidade urgente de muitas bibliografias on-line especializadas. Esta é uma bibliografia analítica de textos latinos que foram escritos durante a Renascença, e também em data posterior , que podem ser utilizados livremente pelo público em geral na Web. Esta página foi postada pela primeira vez em 1 de janeiro de 1999 e recentemente atualizada, em 15 de julho de 2012. Talvez ao leitor interesse saber que ela contém atualmente 42 485 registros. [ fim da tradução] .

Todos os grandes filôsofos estão traduzidos para todas as línguas e suas traduções estão também na internet. Os filósofos gregos foram traduzidos para o Latim há mais de 400 anos e muito bem reeditados nas duas línguas, grego e Latim, pelos editores Firmin Didot, pai e filho, na França, no século XIX . Aristoteles, Platão, Plutarco, graece et latine, bem como as obras completas de Descartes e Spinoza estão na Gallica, biblioteca digital da Biblioteca Nacional da França. Vide: http://gallica.bnf.fr/?lang=PT

Ao estudar o Latim destes autores não devemos dispensar a consulta simultânea das traduções mais recomendadas nem deixar de ler suas anotações aos textos. Quanto aos textos, enquanto simples objetos de nosso estudo gramatical, temos liberdade de utilizá-los como acharmos melhor.

Na Alemanha, para citar outro grande projeto bibliográfico, temos o site CAMENA - Latin Texts of Early Modern Europe. Corpus Automatum Multiplex Electorum Neolatinitatis Auctorum. German Department of Heidelberg University Chair of German Literature (Modern Period) Prof. Dr. Wilhelm Kühlmann. A Camena contém textos europeus em Latim do início da idade moderna. Vide:

http://www.uni-mannheim.de/mateo/camenahtdocs/camena_e.html

Este site apresenta facsimiles de manuscritos e a sua transcrição e edição vem sendo feitas pelo latinista moderno Niehl Ruediger, trabalho ingente da maior valia.

A internet será o nosso meio e instrumento de estudo, por constituir uma fonte acessível e inesgotável não só de textos , mas também de dicionários e obras didáticas em português, espanhol, francês, inglês, alemão e russo, para o estudo do Latim.

Podemos acessar milhares de textos, desde listas de provérbios ou adágios, em Latim com traduções vernáculas , até obras completas, bilingues, em muitos volumes, com milhares de páginas. E tudo isto se encontra simplesmente com a digitação de algumas palavras latinas na janela de pesquisa do Google ou do Microsoft internet explorer, ou em outro qualquer buscador.

Podemos iniciar utilizando um grupo de palavras frequentissimo em qualquer texto latino, as quais o estudante não terá problema em memorizar, de preferencia em algum contexto interessante, o das palavras latinas invariáveis, preposições, conjunções, advérbios e interjeições.

Assim , no Google,por exemplo, pesquisando algumas destas palavras latinas, aleatoriamente escolhidas, [nunc sic etiam plus], encontramos 2.870.000 resultados, em 0,12 segundos. Entre estes destacaremos para nossa referência futura : O DICIONÁRIO DE EXPRESSÕES E FRASES LATINAS, por HENERIK KOCHER, que reúne expressões e citações extraídas de autores latinos de várias épocas, além de citações da Vulgata Latina, provérbios, máximas jurídicas, etc., acompanhados de tradução em português, e organizados em mais de 30 mil entradas, ordenadas alfabeticamente. Vide: http://www.hkocher.info/minha_pagina/dicionario/a00.htm

Um segundo texto , bem mais curto compilado pelo Professor JOSÉ PEREIRA DA SILVA, traz uma versão portuguesa antes do texto latino, intitula-se ALGUNS PROVÉRBIOS, MÁXIMAS E FRASES FEITAS DE ORIGEM LATINA QUE SÃO BASTANTE COMUNS ENTRE NÓS.

Uma técnica bem simples de aprender Latim é memorizar provérbios e máximas latinas com sua tradução portuguesa e buscar o Latim que se encontra no português e o português que aflora no Latim. Vide: [http:// http://www.filologia.org.br/revista/artigo/4(12)54-76.html http://www.filologia.org.br/revista/artigo/4(12)54-76.html]

Por acaso, na última das 12 páginas, geradas pelas palavras [nunc sic etiam plus] , encontramos um texto latino denominado De Vulgari Eloquentia, Sobre a Eloquência Vulgar, escrito em Latim prerrenascentista por Dante Alighieri, o celebrado autor da Divina Comédia, uma das obras máximas da literatura italiana. http://dante.ilt.columbia.edu/books/devulgari/devulgar.html http://dante.ilt.columbia.edu/books/devulgari/devulgar.html

O texto de Dante Alighieri, De Vulgari Eloquentia, exemplifica o modo como como um grande erudito e poeta italiano escrevia naturalmente em Latim, por volta do ano 1300 da nossa era. Podemos dizer que a Renascença se estende da troica italiana Dante, Petrarca e Bocaccio até Melanchton, Lutero , Thomas Morus e Erasmus de Rotterdam .

Deste último, a obra mais interessante e extensa são os seus 4151 adágios, ADAGIA, compilados e comentados ao longo de 36 anos de assídua leitura dos clássicos gregos e latinos. Foram publicados e traduzidos na França, em 2010, sob a responsbilidade de Laurent Thirouin. As obras de Erasmo quase desapareceram, e são dificilmente encontradas, ainda hoje, até mesmo nas melhores bibliotecas da Europa, por terem sido incluídas pela Igreja Católica no Index Librorum Prohibitorum , no índice dos livros que os católicos estavam proibidos de ler e as bibliotecas de conservar.

Os Adagia, dificílimos de ler, encontram-se na internet, para download, em cinco tomos , pelo GROUPE RENAISSANCE ET AGE CLASSIQUE , UMR 5037, LYON 2 : Tome I (adages 1-1000) : Tome II (adages 1001-2000) : Tome III (adages 2001-3000) : Tome IV (adages 3001-4151) : Tomo V. Tables des Adages. O texto integral pode obter-se também num unico pdf. Erasmo exemplifica o Latim clássico 1500 anos depois de Cicero. Uma versão impressa está à venda, trazendo também uma tradução para o francês.

Vide: http://sites.univ-lyon2.fr/lesmondeshumanistes/2010/09/14/les-adages-derasme/


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Darcy Carvalho,
29 de jul de 2014 16:06
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