ECONOMICS. PENSAMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO NO SÉCULO XX. Cfr. Subpáginas.

THE BRAZILIAN ECONOMIC THOUGHT IN THE XXTH CENTURY. O Pensamento Econômico Brasileiro no Século XX.

Roberto Campos (1917-2001). Economista Brasileiro, Diplomata e Professor. Discurso de Posse, na Academia Brasileira de Letras. Biografia. Bibliografia 

Source: http ://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=238&sid=232 

Roberto de Oliveira Campos, economista, diplomata e professor, nasceu em Cuiabá, Mato 
Grosso, em 17 de abril de 1917 e faleceu no dia 09 de outubro de 2001, no Rio de Janeiro, RJ. 
Biografia( De Rebus Gestarum), Bibliografia, Discurso de Posse na Academia Brasileira de 
Letras. Source: Academia Brasileira de Letras. Av. Presidente Wilson 203, Castelo | CEP 20030- 
021 | Rio de Janeiro | RJ Tel: (21) 3974-2500 | E-mail: academia @ academia.org.br 

Cito: NA VIRADA DO MILÉNIO. Roberto Campos no Discurso de Posse 

'Espera-se de um economista que diga algo sobre perspectivas económicas. Hesito em fazê-lo, 
não só porque é perigoso profetizar (especialmente sobre o futuro), como porque minha 
profissão não está em odor de santidade. Diz o populacho que nossos prognósticos são ainda 
menos confiáveis que as previsões meteorológicas do INPE e que quem acredita nos 
planejadores económicos deveria olhar para o camelo: "é um cavalo desenhado por um comité 
de economistas". Chego a esta Academia em fim de século e começo de milénio. 

Este século foi o pior dos séculos. Este século foi o melhor dos séculos... Foi o pior dos séculos 
porque, em duas guerras mundiais e em conflitos ideológicos, religiosos, raciais e tribais, 
estima-se que pereceram cerca de 170 milhões de pessoas. Mais que o total de mortos em 
guerras, desastes e pestes desde o começo da história humana. E foi também o melhor dos 
séculos, porque nele houve coisas milagrosas: 

- A descoberta do segredo do átomo (para o bem ou para o mal); 

- A descoberta do segredo da vida (a dupla hélice); 

- A morte da distância e o encurtamento do tempo; 

- A escapulida de nossa prisão orbital, para bolinarmos outros planetas e, quiçá, estrelas; 

- O rompimento, por centenas de milhões de pessoas, dos grilhões da pobreza ancestral. 

A pobreza deixou de ser uma fatalidade, para se tornar o subproduto de opções erradas e os 
desvios de comportamento. Conhece-se, hoje, a grande síntese do crescimento: estabilidade 
de preços na macroeconomia; competição na microeconomia; abertura internacional; e 
investimentos massiços no capital humano. "De nada valem a torre nem a nave", dizia Sófocles, 
"sem o homem". 

A sociedade do próximo milénio será uma sociedade globalizada e digitalizada. Ignorar essas 
coisas seria auto-mutilação. Nossa linguagem girará em termos de bits, muito mais que de 
"átomos". Na era digital, até os "literatos" terão de virar "digeratos". 

A primeira coisa a fazer-se no Brasil é abandonarmos a chupeta das utopias em favor da 
bigorna do realismo. É tempo de balanço e autocrítica. E, sobretudo, de ginástica institucional, 
a fim de nos prepararmos para a quarta onda de crescimento do pós-guerra, que 



provavelmente advirá na primeira década do milénio, apoiada em três revoluções 
tecnológicas: 

- A revolução da Internet, que eliminará vários constrangimentos de tempo e espaço; 

- A revolução da engenharia genética, que depois do facasso da engenharia social em reformar 
o homem moral, pode ter sucesso na reformatação do homem físico; 

- A revolução da nano-tecnologia que, pela miniaturização, substituirá nos produtos, cada vez 
mais o insumo físico pelo insumo cognitivo. 

Para a minha geração, confiante em que o Brasil chegaria ao ano 2000 não como país 
emergente e sim como grande potência, forte e justa, este fim de século é melancólico. 
Estamos ainda longe demais da riqueza atingível, e perto demais da pobreza corrigível. Minha 
geração falhou. Confiteor. 

Agradeço aos benévolos confrades terem aceito em sua grei uma personalidade controvertida. 
Prometo-vos, em verdade vos prometo, agir como os mulçumanos que descalçam suas 
sandálias na porta da mesquita, para não contaminá-la com a poeira, o barro e o estrume das 
ruas. Descalçarei minhas botas ideológicas nos umbrais desta Casa. E aqui obedecerei 
fielmente à regra de Joaquim Nabuco, em seu discurso inaugural de secretário geral, na sessão 
de 20 de julho de 1897: 

"Eu confio, disse ele, que sentiremos todos o prazer de concordar em discordar; essa 
desinteligência essencial é a condição da nossa utilidade, o que nos preservará da 
uniformidade académica. Mas o desacordo tem também o seu limite, sem o que 
começaríamos logo por uma dissidência". Roberto Campos no Discurso de Posse, na 
Academia Brasileira de Letras.' Finis Citationis 

ROBERTO CAMPOS. BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA 

Roberto de Oliveira Campos, economista, diplomata e professor, nasceu em Cuiabá, Mato 
Grosso, em 17 de abril de 1917 e faleceu no dia 09 de outubro de 2001, no Rio de Janeiro, RJ. 

Em seu mais comentado livro, A LANTERNA NA POPA, fez uma auto-avaliação da trajetória 
como diplomata, economista e parlamentar, descrevendo detalhes da convivência com John 
Kennedy, Margareth Thatcher, Castelo Branco, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Jânio 
Quadros. 

TRABALHOS PUBLICADOS: 

Artigos técnicos, relatórios sobre desenvolvimento e economia internacional, publicados em 
várias revistas e jornais. 

LIVROS: 

- Economia, Planejamento e Nacionalismo - APEC Editora S.A. (1963). 

- Ensaios de História Económica e Sociologia - APEC Editora S.A. (1964). 



- A Moeda, o Governo e o Tempo - APEC Editora S.A. (1964). 

- Política Económica e Mitos Políticos - APEC Editora S.A (1965). 

- A Técnica e o Riso - APEC Editora S.A (1967). 

- Reflections on Latin American Development - University of Texas Press (1967). 

- Do Outro Lado da Cerca - APEC Editora S.A (1968). 

- Ensaios Contra a Maré - APEC Editora S.A (1969) 

- Temas e Sistemas - APEC Editora S.A (1970). 

- Função da Empresa Privada - Gráfica Editora Rainha Lescal Ltda. (1971). 

- O Mundo que Vejo e não Desejo - José Olympio Editora (1976). 

- Além do cotidiano - Editora Record (1985). 

- Ensaios Imprudentes - Editora Record (1987). 

- Guia para os Perplexos - Editora Nórdica (1988). 

- O Século Esquisito - Editora Topbooks (1990). 

- Reflexões do Crepúsculo - Editora Topbooks (1991). 

- A Lanterna na Popa (Memórias) - Editora Topbooks (1994). 

- Antologia do Bom Senso - Editora Topbooks (1996). 

- Na virada do Milénio (Ensaios) - Editora Topbooks (1998). 
Co-autor: 

- Trends in International Trade (Relatório do GATT). 

- Partners in Progress (Relatório do Comité Pearson do Banco Mundial). 

- A Nova Economia Brasileira (com M.H. Simonsen) - José Olympio Editora (1974). 

- Formas Criativas no Desenvolvimento Brasileiro (com M.H. Simonsen) - APEC Editora S.A. 
(1975). Atividades Profissionais: 

Conselheiro Económico da Comissão de Desenvolvimento Económico Brasil-Estados Unidos 
(1951/1953). 

Diretor, Gerente Geral e Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico (1952/ 
5/9). 

Secretário-geral do Conselho de Desenvolvimento Económico (1956/ 1959). 



Professor das cadeiras de Moeda e Crédito e Conjuntura Económica da Faculdade de Economia, 
Universidade do Brasil (1956 / 1961). 

Embaixador itinerante para negociações financeiras na Europa Ocidental (1961). 
Delegado a Conferências internacionais, inclusive ECOSOC e GATT (1959 / 1961). 
Embaixador do Brasil nos Estados Unidos (1961 / 1961). 

Ministro de Estado para o Planejamento e Coordenação Económica (1964/ 1967). 

Membro do Comité Interamericano para a Aliança para o Progresso, representando o Brasil, 
Equador e Haiti (1964/ 1967). 

Presidente do Conselho Interamericano de Comércio e Produção (CICYP) (1968 / 1970). 

Embaixador do Brasil na Corte de Saint James (1975 / 1982). 

Senador da República, representando o Estado de Mato Grosso (1983 / 1990). 

Deputado Federal pelo Estado do Rio de Janeiro, eleito em outubro de 1990 e reeleito em 15 
de novembro de 1994. 

Membro da Junta de Governadores do Centro de Pesquisas de Desenvolvimento Internacional 
(Canadá). 

Membro da Junta de Diretores da Fundação de Recurso para o Futuro (USA). 
Membro do Grupo dos Trinta, sobre reforma monetária (USA). 

Membro do Conselho consultivo do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de 
Stanford (USA). 

Presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento - COMUDES - da Cidade do Rio de 
Janeiro (1999). 

Membro do Conselho de Administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e 
Social - BNDES (1999). Finis Citationis. Prof. Dr. Darcy Carvalho. Usp. Fea. 2014 

ROBERTO CAMPOS, ECONOMISTA , DIPLOMATA, PROFESSOR. DISCURSO DE POSSE 

Discurso de Posse. Discurso de recepção do académico Antonio Olinto Discurso de posse do 
académico Roberto Campos 

DISCURSO DE RECEPÇÃO DO ACADÉMICO ANTONIO OLINTO AO ACADÉMICO ROBERTO 
CAMPOS . Biografia e Atividades de Roberto Campos 

A afluência dos que hoje acudiram ao chamado feito pela Casa de Machado de Assis para 
vossa posse, Senhor Roberto Campos, atesta o plano de influência que vossa lucidez suscitou 
nos brasileiros deste século. No momento em que entrais para a Academia Brasileira de Letras, 
faltam poucos meses para o término dos Novecentos. Fim-começo, começo-fim é hora de um 
exame de consciência. É também hora de mudança. Para as transformações por que passou o 



pensamento brasileiro nas últimas décadas muito contribuístes, e é delas que me parece 
mister fale o que vos saúda nesta recepção, Senhor académico Roberto Campos. Chamo-vos 
agora assim para, como romancista e narrador, contar a vossa história. 

Corria a segunda década do século quando nascestes, em pleno centro geográfico da América 
do Sul, na cidade de Cuiabá, de família que residira perto dali, no distrito de Livramento, terra 
dos índios Terena. Da região terena foi também Rondon, brasileiro por excelência. Aos cinco 
anos de vossa idade, perdestes o pai, o professor Waldomiro Campos. Vossa mãe, Honorina de 
Campos, alojou-se na fazenda de parentes em Mato Grosso, perto de Corumbá, onde fizestes 
o curso primário mas, não desejando viver como a parte pobre da família, D. Honorina pegou 
os dois filhos, vós e vossa irmã Catarina - que até hoje chamais de Catitinha - e fez uma longa 
viagem que durava mais de quinze dias, da fazenda no interior matogrossense até São Paulo. 
Eram três dias de carro de boi, cinco de vapor, uma semana de trenzinho Maria Fumaça, até 
Bauru, e, num trem melhor, daí até a cidade de São Paulo, onde D. Honorina estudou numa 
academia de corte e costura e, com essa profissão, emigrou para Guaxupé, no Sul de Minas. 
Veja-se a época. Era 1927, Guaxupé estava no auge da cultura do café. No mesmo ano, saí eu 
de Ubá para Juiz de Fora, onde meu pai, que trabalhava na distribuição de filmes para cinemas 
do interior, procurava uma nova atividade em sua profissão de contador. 

Veio a crise de 1929, que abalou a vida de todo o mundo, principalmente a da classe 
intermediária. Com a crise, o problema era: como estudar? Estudo tinha preço alto. D. 
Honorina fez o mesmo que minha mãe Áurea: colocou-vos no seminário. Seguindo uma 
tradição que vinha do Império, jovens brasileiros da classe média-média costumavam ser 
encaminhados pelos pais a seminários católicos, nem sempre em busca do sacerdócio, mais 
por causa da gratuidade dos estudos. Assim foi que vós, no Sul de Minas Gerais, e este que vos 
recebe, em Campos, Norte do Estado do Rio, nos vimos fazendo o Seminário Menor e tendo 
aulas diárias de Latim, ouvindo missas todas as manhãs e fazendo sermões para os fiéis da 
redondeza, o que pode ter-nos ajudado a criar um espírito de disciplina, difícil de se adquirir 
em colégios comuns. No seminário da Gameleira, em Belo Horizonte, estudamos juntos, vós, 
Teologia, e este que vos fala, Filosofia, num período em que parecíamos prestes a reconquistar 
tempos democráticos, mas, reclusos e com os minutos inteiramente tomados por estudos e 
orações, nem sempre atentávamos para o que ocorria no corpo do Brasil. De lá fostes, sem 
batina, para Batatais, onde conhecestes e namorastes Stella Ferrari Tambellini. Pouco depois, 
chegáveis ao Rio de Janeiro e aqui nos encontramos, como professores, no Colégio Santa 
Cecília e no curso Mattos. Fizestes então o concurso direto para o Itamaraty e lá estive, para 
assistir a vossa posse, num grupo que Oswaldo Aranha, então Ministro das Relações Exteriores, 
chamou de "os 18 do Forte". 

Já com um status diplomático resolvido, viajastes para Batatais, de onde voltastes casado com 
Stella, que vos acompanha desde então. Era em 1939. 

Estávamos sob o domínio do Estado Novo, a guerra viria ampliar o tempo de Getúlio Vargas no 
poder, já que os Aliados precisavam de apoio fora dos campos do conflito, na Europa e na Ásia, 
mas isso não evitou que o fim da guerra derrubasse a ditadura Vargas. Foi o tempo de uma 
nova poesia no Brasil quando João Cabral de Melo Neto compôs seus primeiros poemas e a 
"Geração de 45" aguçava seus instrumentos. Guimarães Rosa escreveria os contos de 



"Sagarana" em 1940, só vindo a publicá-los em 1946. Enquanto isso, estáveis em Washington, 
como Terceiro Secretário, e ali vos formastes em economia para fazer, em seguida, cursos de 
pós-graduação na Universidade de Columbia. Com os estudos humanísticos de colégios 
católicos, especializações em Filosofia e Teologia, acrescentastes a esses conhecimentos um 
novo patamar cultural, erguendo assim um edifício que vos preparava para um trabalho que o 
Brasil exigiria de vós já no começo do segundo pós-guerra do século. Foi então a época das 
grandes reuniões que mudariam o mundo. Estivestes em Bretton Woods. Ali conhecestes 
Eugênio Gudin e Octávio Gouvêa de Bulhões, cujas idéias combinavam, nos pontos principais, 
com as vossas, na luta para encontrar os caminhos que levassem o Brasil a uma posição de 
prover o essencial para a grande maioria de seu povo. Pois então vossa filosofia de vida já se 
havia desenvolvido, na base de uma lucidez de pensamento rara no Brasil. Como definir vossa 
filosofia? Vejo-a como adepta do pensamento crítico. 

Aponta-nos Karl Popper a necessidade - básica para quem pensa - de termos consciência das 
diferenças entre o pensamento crítico e o pensamento dogmático. O pensamento dogmático - 
dono da verdade e do futuro - já causou perseguições, torturas, assassínios. Ao contrário do 
estímulo à violência, o pensamento crítico está mais afeito às duras tarefas de esclarecer, 
mostrar defeitos, melhorar, enfim mudar sem matar. Em casos concretos, mostra Popper "a 
atitude dogmática" de pensadores e líderes de nosso tempo, inclusive as de Marx, Freud e 
Adler, diversas da posição aberta de "experimentos cruciais" de Einstein, de quem cita a frase: 
"Não pode haver melhor destino para uma teoria física do que abrir caminho para uma teoria 
mais simples, na qual sobreviva, como caso-limite". 

Daí o descobrirmos que só o pensamento crítico aprende. O dogmático recusa-se a aprender e 
repele o novo, principalmente se nele vê perigo para sua inamovível postura. Essa recusa vai 
até o momento em que a realidade derruba o dogma, tal como às vezes derruba muros. Ao 
invés de implantar slogans no pensamento das pessoas, o pensamento crítico, porque aprende, 
também ensina, e o ensino propõe, não impõe, mudanças de rumos, idéias e ações. Estará o 
Brasil, no limiar do ano 2000, suficientemente provido desse necessário ingrediente social e 
pessoal que é o pensamento livre? Se eu tivesse de escolher alguém que haja trabalhado, 
incessantemente, com lucidez e alegria, inteligência e imaginação, para convencer e propor a 
seus patrícios - isto é, os que têm a mesma pátria - de que fora da liberdade não há saída - e de 
que o pensamento livre é a base da liberdade - eu optaria pelo vosso nome, académico 
Roberto Campos. Em artigos e discursos, aulas e conferências, livros e declarações muitas, em 
conversas tanto como em ações, tende-vos empenhado em exorcizar os preconceitos de uma 
cultura que tem o hábito de se entusiasmar pelo discurso vazio. Ninguém tentou mudar o 
discurso vazio do país, mais do que vós, numa atividade constante, empreendida sob a égide 
da mudança. Voltando à minha narração, acabada a guerra e terminados os planos destinados 
a por de novo o mundo em bases seguras, inclusive o Plano Marshall, que salvou a Europa, 
passastes a integrar a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos que viria a publicar 17 preciosos 
volumes de análise, avaliação e planejamento da economia brasileira. Esse trabalho levou-nos 
à criação do BNDE, de que fostes sucessivamente superintendente e presidente. O relatório da 
Comissão Mista serviria também de base ao Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, que 
elaborastes juntamente com Lucas Lopes. Não havíeis chegado ainda então aos 40 anos, e 
vosso nome já se tornara o símbolo de uma linha de ação. Tornara-se também um símbolo de 
inteligência autodepreciativa, com uma boa dose de humildade, virtude que deve ter-vos sido 



inculcada nos tempos de seminário e que nenhum mal faz aos que a mantêm e cultivam. 
Vossos artigos e livros, tanto quanto vossa atuação em postos de direção, revelam que a 
inteligência é, em vós, aguçada por uma dose justa de imaginação, misturada a uma visão 
concentrada de problemas objetivos, e sabemos que sem imaginação muitas qualidades de 
análise e previsão deixam de funcionar. 

Finda a era Juscelino Kubitschek, fostes enviado por Jânio Quadros para negociar a dívida 
externa brasileira na Europa e, logo em seguida, assumistes o posto de Embaixador do Brasil 
em Washington, onde havíeis, no começo dos anos 40, iniciado vossa vida diplomática no 
exterior. Com as mudanças de 1964, Castelo Branco assumiu a Presidência da República e vos 
convocou para organizar um ministério novo na administração brasileira, o do Planejamento. 
Nele criastes o Banco Central, o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), o Banco da 
Habitação, a Caderneta de Poupança, elaborastes o Estatuto da Terra e reduzistes, em menos 
de três anos, a inflação brasileira de 100% a 25% ao ano. Governo provocado por um 
movimento de revolta, e não por eleição popular, como haviam sido os cinco anteriores, de 
Gaspar Dutra a João Goulart, teve dificuldades de relacionamento com políticos ligados ao 
espírito democrático anterior, e optou pelo sistema de cassações dos direitos políticos de 
muitos deles. Foi então que vos recusastes a assinar o documento de cassação de Juscelino 
Kubitschek, com quem havíeis trabalhado na elaboração e redação do Plano de Metas e na 
condução do BNDE. Dissestes então a Castelo Branco: "Não posso assinar. Se o Presidente faz 
questão de unanimidade, entrego em suas mãos o meu cargo de Ministro do Planejamento." 
Ao que o Presidente Castelo Branco retrucou: "Vote com a sua consciência, Roberto. E por 
favor continue ministro." Entendo ter sido, aquele, um momento de grandeza nos difíceis dias 
que todos enfrentávamos. 

Foi então que também colaborastes, com vossa autoridade e assinatura, para a concessão, 
pelo Presidente Castelo Branco, do terreno adjunto ao Petit Trianon, ato que permitiu a 
expansão das atividades da Academia Brasileira de Letras. 

O perigo de sociedade fechada nos cercava por todos os lados, fosse o da situação, fosse o da 
oposição, violenta ou moderada, ao governo forte da época. O livro de Karl R. Popper, "A 
sociedade aberta e seus inimigos", teria servido de alerta, já que, tendo escrito uma história do 
historicismo, de Platão a Hegel e Marx, Popper se colocava na posição de que a sociedade 
fechada era essencialmente inimiga da liberdade e partidária de um controle, quase sempre 
absoluto, do governo sobre a sociedade inteira. 

Quase sozinho, lutastes pela sociedade aberta e ficastes por isso marcado, como se crime 
fosse desejar a liberdade, primeiro item do tríptico da Revolução Francesa, básico para que se 
chegue ao segundo, igualdade, e ao terceiro, fraternidade. Depois de sete anos, sete meses e 
sete dias como embaixador do Brasil em Londres (não creio haja a menor explicação racional 
para esse número) ingressastes em nova fase de vossa vida: a de congressista. Passastes 16 
anos no Parlamento, os primeiros oito como Senador por Mato Grosso e as duas legislaturas 
seguintes como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Em vosso discurso de estréia no Senado 
Federal fizestes uma análise precisa da situação brasileira, com toques de humor e de ironia. 
Era o ano de 1983, no último período do regime iniciado em 1964, e vossas palavras 
começaram com a citação de excertos de antigos discursos, os de Cunha Matos e Evaristo da 



Veiga, em acalorado debate sobre a "Moratória", na Câmara dos Deputados da Regência Trina 
Permanente, no Rio de Janeiro, em 30 de junho de 1831, precisamente 152 anos antes do 
discurso que pronunciáveis naquele instante. A frase antiga dizia: "A nossa situação atual é 
crítica. Não digo que não possamos sair da má posição em que estamos; podemos, tendo 
economia e juízo; mas é um fato que isto não pode acontecer senão com o tempo." As 
mesmas palavras podiam ser repetidas em 1983, ou agora. Usastes também as palavras do 
filósofo francês: "Nada suponho; nada proponho; exponho". Expusestes as vossas idéias sobre 
a situação brasileira e, relendo-as agora, reconheço que são ainda atuais neste fim de milénio. 

Esse vasto panorama de vossa vida se completaria com a mais inesperada tarefa em que vos 
empenhastes. Trata-se de uma parte de vossa atividade que foi tranquilamente patrulhada, 
não se devia falar muito no assunto, como se não tivesse acontecido. Saíram, é verdade, 
algumas notícias na mídia, mas poucas e incompletas. Na luta contra o jugo do dogmatismo, 
Deng se utilizou de chineses ligados ao mundo ocidental a fim de com eles construir uma 
ponte que ajudasse o país a vencer as crises dos anos 60 e parte dos 70. Assim foi que o 
empresário e executivo chinês, diretor da China Investment and Trade International 
Corporation, Sr. Rong Yren, vos convidou para várias visitas à China, a fim de analisar e debater 
medidas que se integrassem nos planos de Deng Xiaoping. Era uma política de "portas abertas", 
que possibilitasse o "salto adiante" e tinha por base um "Programa das Quatro 
Modernizações" (da agricultura, indústria, tecnologia e defesa). O slogan proposto pelo grupo 
de Deng Xiaoping era "a cada um de acordo com o seu trabalho" e visava chegasse o país a 
uma "prosperidade comum". Com o tempo, a filosofia de Xiaoping pregou a adoção de uma 
"abertura internacional", inclusive através da contribuição de economistas e técnicos de várias 
partes do mundo. Nas vossas viagens à China conhecestes o socialismo à moda chinesa que 
vós classificastes de "o mais excitante experimento de engenharia social de nosso tempo". 
Assim explicastes, em vosso livro "Ensaios imprudentes", o revisionismo de Deng: "consiste na 
substituição do dogmatismo marxista por um pragmatismo seletivo, que admite inclusive o 
uso de certos "instrumentos" capitalistas no interesse da modernização chinesa." 

A par desse esforço levantou-se na China uma luta em prol da educação, problema que 
também nos aflige. Ocorreu há não muito, na pequena cidade alemã deTombach, perto da 
fronteira com a França, no Estado de Bade-Wúrtemberg, uma reunião quase secreta, de 
executivos e intelectuais europeus, para discutir a violência do desafio científico, assunto que 
também vos tem preocupado, Senhor Roberto Campos, em artigos e conferências. Essa 
reunião deu o mote: "As máquinas são decisivas, mas não tanto. Importantes são homens e 
mulheres educados ao mais alto nível". Um país com tendência para o surrealismo, precisa de 
lutadores como vós, em todas as frentes, precisa da tranquilidade com que aceitais a missão 
de sugerir a adoção do pensamento crítico a uma sociedade que sofre a tentação do 
pensamento errático. 

Há que destacar a característica talvez maior de vosso talento: a visão geral das coisas. Há 
décadas vínheis dizendo o que poderia acontecer aqui e ali, caso uma situação dada 
continuasse a se desenvolver numa linha determinada. Agistes como profeta em prever o que 
aconteceria, ainda antes do fim do milénio, em diversas partes do mundo. Tem-se a impressão 
de que dispondes de uma visão da realidade e dos possíveis caminhos que sairiam de um 
tempo daqui e de agora. Sois avesso ao wishful thinking, expressão que se poderia traduzir por 



"pensamento desejoso", isto é, de se acreditar que acontecerá exatamente aquilo que está no 
desejo de quem pensa. Daí, a clareza de vossos escritos, que vem da "claritas" de Santo Tomás 
de Aquino, que foi o vosso chão inicial. Por causa desse chão, o aprendizado de economia, 
posterior e seus tempos de seminário católico, pousou em terreno lavrado pelo exercício da 
Lógica e pelo vezo do pensamento aberto. No seminário começastes a escrever, na certeza de 
que seríeis principalmente escritor, como o sois agora. Lembro-me de, em 1935, me haverdes 
dado a ler poema vosso, creio que chamado "O amor materno", quando opinei: "É o seu 
melhor" (eu vos tratava na terceira pessoa e não com o "vós" desta saudação). Respondestes: 
"O melhor e o último". Explicastes: "Em poesia, ou génio ou nada. E eu já descobri que em 
poesia eu não sou génio". Sabemos hoje que sois um mestre da prosa. Tendo percorrido todos 
os estilos de ensaio e chegado a um primoroso relato autobiográfico, conquistastes um estilo 
próprio, de severo dominador da palavra. Em "Guia para os perplexos", revelastes vossa 
admiração por Maimônedes, o filósofo e médico judeu que morou no Cairo no Século XII da 
era cristã. Resolvestes apresentá-lo como o racional por excelência ao tentar imprimir 
racionalidade à teologia e à ética judaicas. Queria libertar o pensamento judaico do 
irracionalismo da Cabala. Comentastes: "Maimônedes desconfiava do entusiasmo e pregava a 
moderação. Acreditava que o progresso viria através de um lento e despretencioso avanço da 
razão". 

Versado em Santo Tomás de Aquino, vistes no filósofo judeu um companheiro do santo 
católico, no seu apego à razão. Dizia Maimônedes que a construção da boa sociedade 
pressupõe não fórmulas messiânicas, mas simplesmente o império da lei. Transcrevestes: "A 
lei como um todo objetiva duas coisas - o bem-estar da alma e o bem-estar do corpo. O 
primeiro consiste no desenvolvimento do intelecto humano; o segundo, no melhoramento das 
relações políticas dos homens entre si". Admirais todos os autores que aceitam o primado 
irreversível da razão. Entre eles o que mais alto sobe na vossa admiração é Friedrich von Hayek, 
"o homem de idéias que mais bravamente lutou, ao longo de duas gerações atormentadas, 
pela liberdade do indivíduo contra todas modas totalitárias, do soviético ao nazismo." Repito 
que, em vossos livros, vindes mostrando um estilo que vos coloca na primeira linha da 
ensaística brasileira. Todos eles - "Antologia do bom senso", "Guia para os perplexos", "Ensaios 
de história Económica e Sociologia", "O Século esquisito", "Ensaios imprudentes", "Reflexões 
do crepúsculo", "A técnica e o riso", "Do outro lado da Cerca", "Ensaios contra a maré", "O 
mundo que vejo e não desejo", "Na virada do milénio" e last but not least "Lanterna na popa" - 
impuseram um estilo novo às análises sociais e económicas escritas no Brasil, ao mesmo 
tempo em que revelavam uma excelência literária que, no caso de vossa autobiografia 
"Lanterna na popa", ganhou o Prémio Ermírio de Morais, concedido por esta Academia que 
ora vos recebe. 

Ao longo de todos esses livros há uma pregação, numa série de análises claras e lúcidas sobre 
o nosso tempo, sua gente e suas opções. De que maneira classificar vosso estilo? Talvez num 
misto de Samuel Pepys e Montaigne. De Pepys tendes o gosto pela precisão da palavra e pela 
curteza das afirmações, contidas numa técnica literária cujas descrições, mesmo as 
aparentemente não-opinativas, na verdade insuflam e propõem opiniões. Opinativo sois, pois, 
com a liberdade de vosso pensamento, poucos são os que revelam no Brasil tanta coragem de 
pensar a realidade e dizer, bem e com propriedade, o que pensam. 



De Montaigne tendes o espírito humanístico e a sabedoria de concentrar, num ensaio curto, 
um universo completo de pensamento. A isso, acrescentais uma ironia que assume diversas 
capas, a ironia direta, a leve, a que se exprime por jeux de mots, a que se vale de largas 
referências a uma cultura ecuménica. 

Vosso lado polémico se assemelha ao de Chesterton, que parece ter, com a realidade, um 
pacto, com palavras que se juntam para realçar paradoxos e convencer através de duplos 
sentidos. 

O uso que fazeis da palavra é de estrema sabedoria. Há uma perfeita adequação entre o 
pensamento que defendeis e o modo como o colocais em vocábulos. Exatamente porque o 
mais difícil dos estilos é o estilo argumentativo, o que usa elementos da Lógica para dar 
transparência a um argumento, foi que o aprendizado humanístico do seminário se 
transformou, em vossa linguagem de escritor, numa arma tão poderosa. Junto com a clareza 
tomista , vós vos adestrastes na direiteza e simplicidade de Descartes. Durante muitos anos, 
estivestes presente a debates, acordos, contratos, pactos, na tese de que nenhuma sociedade 
pode sobreviver sem um contrato, e nem foi por outro motivo que Rousseau acabou por se 
tornar o homem-chave de todo um movimento que é hoje tá forte como no conturbado final 
do "Ancien Regime". Nesses contatos e contratos, fostes muitas vezes de extrema severidade, 
devido à segunda das duas palavras que vos definem: a lucidez e a coerência. A elas eu juntaria 
outra: a equanimidade. Se tendes o hábito de escolher a Lógica por base, sabeis também que a 
realidade pode mostrar outra - e oculta - lógica, surgiu Pascal para realçar a importância de 
"esprit de finesse" em contraposição ao "esprit de géometrie", ou talvez não em oposição mas 
em companhia de. Porque revelastes "finesse" em vossos escritos, ao mesmo tempo em que 
dizeis, neles e nos debates verbais, exatamente o que julgais certo, sem fantasias nem 
sombras. Vós mesmo vos definis como um "pregador de idéias", imbuído talvez demais da 
"índole da controvérsia" e sem grande "capacidade de acomodação". Sendo, porém, a 
controvérsia um elemento eminentemente democratizante, isto vos coloca num spectrum 
político de invejável tolerância. 

A vossa obra-prima, "Lanterna na popa", jogou no pensamento brasileiro todos os conflitos e 
perplexidades da nossa história neste século. São páginas de memórias, são análises de gentes 
e acontecimentos, de atos e omissões, de tempo perdido e às vezes reconquistado. É livro que 
recupera um período agitado da vida brasileira (quais os que não o foram?), mas que, por sua 
proximidade e por havermos muitos de nós passado por ele, com maior ou menor consciência 
do que estivesse acontecendo, sentimo-lo como se fosse a nossa própria história. 

Falando/escrevendo por vós, falais/escreveis também por nós, e este é o fascínio de vossa 
narração. De rara beleza são as páginas sobre vossa infância em Mato Grosso, com as 
descrições da Nhecolândia, suas figuras desenhadas contra o fundo estranho e belo do 
Pantanal. Dizeis: "Na minha ótica de primeira infância, o Pantanal me parecia mais perigoso do 
que belo". Havia as cobras (a jararaca, a cascavel e a sucuri), as onças (parda e pintada), as 
piranhas. O pacu era o peixe democrático, fácil de pescar, as bebidas eram o guaraná ralado e 
o chimarrão. Afirmais que só viestes a perceber a beleza do Pantanal trinta anos mais tarde - a 
bela alternância das salinas, lagoas salobras, com praias branca, as lagoas doces, com 
vegetação nas margens, e a belíssima revoada das garças, dos tuiuiús e baguaris. Vosso primo 



e companheiro de quarto no começo de vossa vivência carioca, Manoel de Barros - "o único 
poeta da família", dizeis - que vivia em fazenda próxima daquela em que estáveis, assim 
verseja sobre o vosso ambiente infantil: "me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do 
chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios..." Ao longo das 1.417 páginas de vossas 
memórias, louve-se a vossa narrativa, que é primorosamente executada. Os personagens - 
Oswaldo Aranha, Octácio Gouvêa de Bulhões, Eugênio Gudin, Castelo Branco, Margareth 
Thatcher, John Kennedy, Lord Keynes, Friedrich von Hayet, brasileiros, ingleses, americanos, 
árabes, indianos, chineses, gente de um sem-número de países, a todos mostrais com a nitidez 
do bom narrador. Podeis estar certo, académico Roberto Campos, que "Lanterna na popa" 
ficará na literatura brasileira - chamemo-lo de literatura porque literatura é - como um de seus 
livros decisivos, cuja leitura se tornará obrigatória para o entendimento deste país e deste 
tempo. 

Em vossas múltiplas atividades, demonstrastes ser esta coisa difícil em qualquer época ou 
lugar: um estadista. Falando, escrevendo, agindo, pensando, dialogando com os mais diversos 
setores da inteligência de nosso tempo, tendes sido de inteira coerência, de fidelidade à vossas 
idéias, na linha do lema de Shakespeare: "Be faithful to thyself". O ser fiel a si mesmo pode, 
naturalmente, incomodar uma quantidade ponderável de pessoas e de grupos. Daí talvez a 
explicação das turbulências que vos têm cercado nos últimos sessenta anos, a partir do 
momento em que, havendo ingressado no Itamaraty, passastes a ter uma presença inarredável 
nos assuntos deste século. 

Senhor académico Roberto Campos, a Academia Brasileira de Letras vos recebe de braços 
abertos. Há algum tempo já que ela vos esperava. Sabia a Casa de Machado de Assis que vossa 
participação em nossas atividades daria realce à luta que empreendemos em favor da cultura 
brasileira e em defesa do idioma português, que nos une e nos distingue. 

Aqui chegais agora, e é como se um destino, previsto e esperado, se cumprisse. Neste 
momento de alegria para vós e para nós, presto minha homenagem a Stella de Oliveira 
Campos (née Ferrari Tambellini), com quem estais casado há sessenta anos, aos filhos do casal 
- Sandra, Roberto Campos Jr e Luís Fernando - e a D. Catarina, vossa irmã . 

Acima de tudo, Senhor académico, endereço minha homenagem à memória de Honorina de 
Campos que, viúva pobre, educou seus dois filhos, a partir dos cinco anos do menino e dos três 
da menina, aprendendo e em seguida exercendo a profissão de costureira, para educar 
Roberto e Catarina. Honorina de Campos morreu aos 97 anos de sua idade. Quando estava 
com 92, conversando com o filho disse: "Estou com muito medo". Roberto quis saber de quê. 
Resposta: "Tenho medo de não morrer jamais". Pois na verdade ela não morreu. Criou e 
educou seu filho para servir ao Brasil, com a inteligência que, sem ela, poderia não se ter 
desenvolvido. 

Muito obrigado, D. Honorina. 
Muito obrigado a todos. 



DISCURSO DO ACADÉMICO ROBERTO CAMPOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS EM 
26.10.99 



Tristes são as pessoas e as coisas consideradas sem ênfase. Assim versejou o grande Carlos 
Drummond de Andrade. A julgar pelo tumulto ideológico que suscitou minha campanha para 
este calmo sodalício, não sou uma pessoa considerado sem ênfase. Chego à Academia em 
idade crepuscular, o que tem a vantagem de permitir-me saborear melhor um dos poucos 
prazeres - a cultura - que sobrevivem à desconstrução da juventude. 

Refocilando a memória, verifico que a primeira pessoa que fez perpassar um sopro de ambição 
académica em minha mente, até então entupida pelas miudezas do pragmatismo económico, 
foi Rachel de Queiroz. 

Lá se vai mais de um decénio. Visitei-a. Falávamos generalidades sobre o Brasil e sobre a 
trágica morte de um comum amigo, o presidente Castello Branco, cuja ascensão ao poder foi 
um acidente benigno de liderança, e cujo desaparecimento um acidente maligno da história. 
Se vivo, talvez influenciasse para encurtar o período de excepcionalidade militar, que ele, 
receoso da corrupção do poder, queria breve, suficiente apenas para evitar um autoritarismo 
de esquerda. 

Subitamente, numa guinada reflexiva, Rachel me perguntou: 

- Você já pensou em candidatar-se à Academia de Letras? 

- Não, respondi-lhe. Não acredito que tenha obra suficiente e careço de outros requisitos. 

- Da obra - disse-me ela - não cabe a você julgar, e sim aos académicos. Os requisitos são dois. 
Providenciar um cadáver e não ser uma personalidade muito controvertida. 

Não passo neste vestibular, respondi-lhe. Providenciar um cadáver depende do Criador, e não 
desejo que ele se apresse. Não ser personalidade controvertida depende dos outros. 

- Lembre-se, acrescentei, do que dizia nosso amigo, o presidente Castello: "Não é verdade que 
eu seja teimoso; teimoso é quem teima comigo". O mesmo digo eu: "Não sou controvertido. 
Controvertido é quem controverte comigo". 

Anos depois, em 1991, o Criador fez sua tarefa em momento errado e em relação à pessoa 
errada. As Parcas roubaram de nosso convívio, aos 49 anos, José Guilherme Merquior, um 
génio do "liberismo" - expressão que ele preferia ao liberalismo, para demonstrar que não era 
liberal apenas na política, mas também na economia. Convivi muito com dois grandes 
liberistas de minha geração - Merquior e Mário Henrique Simonsen. Com o desaparecimento 
de ambos, em plena produtividade, também morri um pouco. 

Merquior, ocupante da cadeira 12 desta Academia, tinha sido meu conselheiro diplomático, 
quando exerci a função de embaixador em Londres, posto que deixei em 1982, para 
candidatar-me ao Senado Federal por Mato Grosso. 

Tive o bom senso de dispensá-lo da rotina da embaixada, encorajando-o a fazer seu doutorado 
em Sociologia e Política na London School of Economics. 



- Sua tese doutoral contribuirá mais para a cultura brasileira, disse-lhe eu, que os relatórios 
diplomáticos que dormirão o sono dos justos nos arquivos do Itamaraty. 

Previ corretamente. A tese de Merquior - "Rousseau and Weber - Two Studies in the Theory of 
Legitimacy" - escrita em inglês erudito, que humilhava os nativos monoglotas, se tornou parte 
da bibliografia básica em várias universidades européias. 

Encorajado por sua viúva Hilda e por académicos amigos, e rompendo inibições que me 
tornam antipático para disfarçar timidez, candidatei-me a esta Academia na vaga de Merquior. 
Ninguém foi eleito na primeira rodada em abril de 1991 e eu desisti da luta, reconhecendo a 
preferência da Casa pelo meu amigo João de Scantinburgo, filósofo e historiador, cuja "História 
do Liberalismo no Brasil" se tornou referência para os estudiosos das idéias liberais. Um ano 
depois, cometi a imprudência de candidatar-me à Cadeira 13, quando deveria estar me 
aplicando mais às campanhas políticas. Tinha sido encorajado por esse benevolente promotor 
de ambições académicas, que é Jorge Amado, de quem me fiz amigo em Londres, quando, 
indiferente à bagatela de Picadilly Circus, escrevia, hospedado na casa de Antonio Olinto, o 
romance "Tieta do Agreste". Mas tanto Jorge, por benevolência, como eu, por imodéstia, 
sobreestimávamos meus méritos. Foi a Academia que ganhou com a recepção de um novo 
talento, Sérgio Rouanet, filósofo iluminista, opção, aliás, racional num país que de tantas luzes 
carece. Minha mulher Stella, que com sereno realismo se opusera às minhas ambições 
académicas, passou-me um pito, usando uma expressão "academiabilidade", que ouvira de 
Gilberto Amado: "Entre os seus vários dotes, meu caro, não se inclui o da "academiabilidade", 
sussurrou-me ela. 

Relato essas peripécias para demonstrar que nas porfias académicas não fui um "cão de 
açougue". Manuel Bandeira, conta-nos Ledo Ivo, assim chamava os "candidatos ao vosso 
convívio, antecipadamente vitoriosos". Esses não deixam para os rivais nem ossos nem 
esperanças... 

Transcorreu depois um longo intervalo em que me dediquei a ganhar eleições para a Câmara 
Federal. Tarefa mais fácil, sem dúvida, pois como dizia Napoleão Bonaparte, "em política, a 
estupidez não é um handicap". Até porque, segundo Krushev, os políticos podem prometer 
pontes onde não há rios. 

Sobre a dura porfia de ingressar neste cenáculo, não há autoridade maior que Juscelino 
Kubitschek. Tendo vencido por centenas de milhares de votos eleições para governador de 
Minas e para presidente da República, perdeu por um sufrágio sua eleição para a Cadeira n 9 1 
deste sodalício. 

Passaram-se os anos mas não passou de todo a tentação. Ela foi ressuscitada por três amigos 
que eu chamarei de "os três mosqueteiros" - Antonio Olinto, Tarcísio Padilha e Murilo Melo 
Filho - sob a neutralidade simpática do presidente Arnaldo Niskier. Esmeraram-se eles em 
demonstrar-me que os tempos tinham mudado. Muitas das minhas teses heréticas ficaram 
consensuais e meu grau de "academiabilidade" melhorara a ponto de não inspirar cuidados. 

Havia, entretanto, um veto doméstico. Faríamos, Stella e eu, este ano, 60 anos de casados, o 
que, nesta era de rotatividade matrimonial, é um feito portentoso, que rouba, entretanto, ao 



marido a qualidade de macho dominador. Stella tinha sua autoridade reforçada por 
desmentirmos brilhantemente o sarcasmo de Nelson Rodrigues, que numa rodada de uísque 
vespertino comigo e meu cunhado, o saudoso cineasta Flávio Tambellini, respondeu indignado 
a um cliente em mesa vizinha que lhe entregou um convite para uma festa de Bodas de Ouro: 
"Viver com a mesma mulher durante meio século é cinismo ou falta de imaginação". 

Vendo-me prestes a sucumbir à tentação de buscar a imortalidade académica, Stella 
protestou: 

- Só pode ser ambição senil. E desnecessária, pois você vive dizendo que a generosa 
Constituição de 1988, em seu Artigo 230, tornou imortais todos os idosos brasileiros, 
garantindo-lhes "o direito à vida". 

Respondi-lhe ter a imortalidade literária um sabor especial, por ser um julgamento histórico, 
superior às vulgaridades constitucionais que frequentemente não "pegam". Não haveria, aliás, 
perigo de vaidade senil, pois nunca me esquecera da resposta de Olavo Bilac, um dos 
fundadores da Academia, a quem lhe perguntou se não era insólita arrogância dos académicos 
inscreverem em seu brasão "AD IMMORTALITATEM": 

- Não - disse Bilac - os académicos são imortais porque não têm onde cair mortos ... 

Existiram, certamente, cenáculos de apelação menos pretensiosa, como fez notar Afrânio 
Peixoto em sua introdução aos volumes que compendiam vossos discursos académicos. 
Relata-nos ele que em Portugal surgiu, em 1647, a Academia dos "Generosos", seguida pela 
dos "Singulares" em 1663. "Confiados" se chamavam os académicos de Pavia; "Declarados", os 
de Sena; "Elevados", os de Ferrara; "Inflamados" os de Pádua; "Unidos", os de Veneza. Em 
1724, criou-se na Bahia a "Academia Brasílica dos Esquecidos", ressuscitada depois sob o nome 
de "Academia Brasílica dos Renascidos". No Rio de Janeiro, em 1736, se instalaria a "Academia 
dos Felizes"; e em 1751, a dos "Seletos". A mais bizarra de todas foi a dos "Rebeldes", uma 
aventura juvenil de Jorge Amado, criada em Salvador, para rebater o formalismo e suposto 
elitismo da Academia Brasileira de Letras. Teve precária existência, de 1928 a 1930, reunindo- 
se numa sala de sessões espíritas, sob os eflúvios de Alan Kardec. Jorge Amado depois criou 
juízo, sendo eleito "imortal" nesta Academia, em 1961, da qual é membro querido e 
respeitado. Durante certo tempo, foi chique entre os intelectuais de esquerda desdenharem o 
venerando grémio de Machado de Assis, mas vários sucumbiram ao seu encantamento, como 
Antonio Callado, Antonio Houaiss, Darcy Ribeiro e Dias Gomes. 

Minha paz familiar foi restaurada graças a um telefonema de Rachel de Queiroz, que estava 
então pastoreando rebanhos em sua fazenda no Ceará. Com sua infinita e doce persuasão, 
induziu-nos todos a crer que minha candidatura a esta Academia deixara de ser uma idéia fora 
do lugar. 

Para minha surpresa, que me rejuvenesceu, pois ser jovem é apenas a capacidade de ter 
surpresa, deflagrou-se, anunciada minha pretensão à vaga de Dias Gomes, uma ridícula 
batalha ideológica, que, magnificada pela mídia, me transformaria numa ameaça à paz e a 
elegância deste cenáculo. 



Velho e cansado de brigas, visitei então o presidente Niskier e os membros da Diretoria, para 
ofertar-lhes minha renúncia à candidatura. Encontrei pronta reação dos ilustres confrades: 

- A Academia Brasileira de Letras - disseram-me - nasceu ecuménica e assim continuará. Não 
aceitamos vetos de nenhuma ideologia e não há reserva de mercado para nenhuma seita 
política. A Academia é um templo de comunhão cultural e não uma arena de gladiadores 
políticos. 

E lembraram-me que, em seu nascimento, esta Casa fundiu numa comunhão de interesses 
culturais, dois grupos políticos radicalmente opostos - os republicanos e os monarquistas - sem 
que houvesse jamais desrespeito ao congraçamento cultural. Republicanos eram Rui Barbosa, 
Lucio Mendonça, Medeiros de Albuquerque e Graça Aranha. Monarquistas eram Joaquim 
Nabuco, Eduardo Prado, Carlos de Laet e Afonso Celso. Conviveram depois em plena 
tranquilidade "florianistas", como Artur de Azevedo e Coelho Neto, e "anti florianistas", como 
Rui Barbosa , Olavo Bilac e José do Patrocínio. 

- Aliás - acrescentou o presidente Niskier - essa tradição de abertura ecuménica é tão forte que 
se criou a liturgia de incineração de votos, convencionando-se que o candidato vitorioso foi 
eleito por unanimidade. Verifiquei depois, lendo a interessante auto-biografia de Dias Gomes, 
que ele também sofrera impugnações ideológicas, quando sucedeu a Adonias Filho, por estar 
no lado oposto do espectro político. Multiplicaram-se cartas à Academia, protestando contra a 
sua eleição. 

No meu caso, a querela foi muito mais estridente. Aliás, como alvo de personalismos injuriosos, 
ganhei todos os campeonatos desta pátria amada, sofrendo patrulhamentos e recebendo 
xingamentos tanto da esquerda radical como dos nacionalistas de direita. O mais inteligente 
dos críticos à minha política económica, quando Ministro do Planejamento, foi, sem dúvida, 
Carlos Lacerda. Esse esmagador polemista disse uma vez, provocando "suspense" na 
audiência: "Tenho a maior admiração pelo Dr. Campos... pela sua absoluta imparcialidade: 
mata imparcialmente os ricos, de raiva, e os pobres, de fome". Não pude excogitar de imediato 
outra resposta, senão dizer que a "fúria da seta dignificava o alvo". 

Mas o argumento fundamental que me fez desistir da desistência foi o da rotatividade da 
cadeira 21. Tanto Álvaro Moreyra como Adonias Filho e Dias Gomes, em seus discursos de 
posse, rotularam-na de "cadeira de liberdade". Poder-se-ia chamá-la também de "cadeira do 
ecletismo". Seu membro fundador foi José do Patrocínio, um liberal abolicionista. Escolheu 
para patrono Joaquim Serra, também um abolicionista que cultivava a filosofia platónica e se 
declarava positivista. O segundo ocupante foi Mário de Alencar, tão recluso em seus pendores, 
que se poderia chamar de neutralista. O terceiro foi Olegário Mariano, um conservador 
getulista. O quarto foi Álvaro Moreyra, o primeiro a se declarar comunista. O quinto foi 
Adonias Filho, um ex-integralista, partidário da Revolução de 1964. Sucedeu-lhe Dias Gomes, 
que se inscrevera no Partido Comunista no final da II Guerra. 

Mantido o precedente da alternância, seria a hora e vez de um conservador ou de um liberal. 
Diferem os dois em que o conservador quer preservar o "status quo", enquanto o liberal aceita 
mudanças, desde que emanadas do mercado competitivo ou provindas do voto democrático. 



Defino-me como um "liberista" que vê no governo um mal necessário. Às vezes, 
absolutamente necessário. 

Descobri algumas afinidades com Dias Gomes. Ambos tivemos educação religiosa, ele num 
colégio marista, enquanto eu completei dez anos em seminário católico, graduando-me em 
Filosofia e Teologia. Foram anos de retiro e castidade, durante os quais acumulei um enorme 
direito de pecar, que nunca pude usar, por falta de cooperação complacente. 

Dizia-se, na minha adolescência, que um cavalheiro completo tinha que ter um diploma de 
bacharel, vestígios de uma doença do sexo e escrever um poema. Enclausurado num mosteiro, 
desqualifiquei-me nos dois primeiros requisitos, mas cometi alguns poemetos sob a forma de 
"haikais" que, para bem da Humanidade, consignei à lata de lixo. Só me lembro de um "haikai", 
de duvidoso gosto, mas não de todo inimaginoso: 

- "Lança os teus olhos ao mar pela hora redonda. 

E aprende na folha que cai a geometria da queda". 

Dias Gomes também cometeu romances juvenis, sobre os quais talvez consentisse em dizer: 
"esqueçam o que escrevi". 

Cometemos, assim, ambos, erros de vocação. Ele estagiou por dois meses numa escola de 
cadetes, fez curso preparatório para Engenharia e cursou até o 3 9 ano de Direito, quando, 
finalmente, descobriu que sua verdadeira vocação era a arte teatral. Desdobrar-se-ia depois no 
rádio e na televisão, com igual brilhantismo e incrível produtividade. 

Eu, de teólogo, tratando como diz Anatole France "avec une minutieuse exactitude 
del'lnconnaissable", passei à Economia, que dizem ser a "ciência de alcançar a miséria com o 
auxílio da estatística". 

Dias Gomes e eu tivemos a mesma votação nesta Academia, indicando que os académicos são 
tão maus profetas quanto os economistas, pois nossos respectivos aliados nos prediziam 
vitórias consagradoras. Isso me faz lembrar uma estória contada por um querido amigo, o 
pediatra Rinaldo de Lamare, sobre a Academia Nacional de Medicina, veneranda instituição 
que já completou 172 anos. Revoltado por sucessivos repúdios à sua pretensão de figurar 
entre os 100 académicos, assim se pronunciou um esculápio frustrado: - A Academia é um 
grupo de médicos de indiscutível valor profissional, de justificada vaidade profissional e de 
incompreensível falsidade eleitoral. 

Nossas percepções do mundo, sempre antagónicas, se adoçaram nas refregas do mundo real. 
Dias Gomes, que se considerava um subversivo vocacional, aderiu ao Comunismo em 1945, e, 
sem ser um ativista ou fanático, nele permaneceu até 1971, desviando-se da linha do partido 
ao protestar em 1966 contra o mau tratamento dado aos escritores soviéticos. Custou a 
aceitar a morte da "ilusão", reconhecendo afinal a incompatibilidade básica entre sua vigorosa 
luta pela preservação da dignidade do ser humano e contra qualquer forma de intolerância, 
com as brutalidades do socialismo real e seu arsenal de expurgos, "gulags" e submissão das 
artes aos dogmas do PCUS. O comunismo se tornou mundialmente uma espécie de religião 



leiga, tendo o Kremlim, como o Vaticano, o "Das Kapital" por bíblia e a ditadura do 
proletariado como a "parousia". 

Em novembro de 1996, em entrevista dada a Ana Madureira de Pinho, na "Revista de 
Domingo", do Jornal do Brasil, Dias Gomes declarou: 

- Não sou comunista, porque o comunismo é uma utopia, nunca existiu em nenhum país do 
mundo comunista. Me considero um homem de esquerda, anti dogmático. Uma vez me defini 
para amigos: um "anarco-marxista-ecumênico-sensual" (esse jogo de palavras me faz lembrar 
a definição por Eliézer Batista, do sistema político de invasão de poderes criado pela 
Constituição de 1988: uma "surubocracia anarco-sindical"). 

E continuou: 

- Sou um homem aberto hoje em dia. Muitas idéias foram reformuladas, mas continuo um 
homem de esquerda. Isso se você considera ser de esquerda somente sonhar com uma 
sociedade mais justa e mais liberta. Se o comunismo nunca existiu, tem razão o historiador 
francês ex-comunista François Furet, ao escrever seu monumental tratado do arrependimento: 
"Le passé d'une ilusion". Essa ilusão custou ao mundo quase 100 milhões de vítimas. Das 
grandes ideologias mundiais não cristãs, o marxismo leninismo foi a mais sangrenta e mais 
curta - 72 anos. O islamismo está ainda em expansão e durou 14 séculos. O budismo e 
confucionismo sobrevivem há cerca de 24 ou 25 séculos. 

Mas Dias Gomes exagera no seu réquiem do comunismo. No museu de obsoletismos políticos, 
sobrevivem dois espécimes: Cuba e Coréia do Norte. E curiosamente algumas universidades 
públicas brasileiras tornaram-se o último refúgio do profetismo e da vulgata marxista. 

Dias Gomes, que se auto descreve como um "proibido precoce", teve peças censuradas ou 
proibidas pelos dois governos Vargas, por vários governos militares e até mesmo por Carlos 
Lacerda, como Governador da Guanabara. Confessa, entretanto, uma frustração: 

- Não ter sido preso é uma falha na minha biografia que me envergonha, uma injusta lacuna. 
Por tudo que fiz, sem modéstia, eu acho que merecia uma honrosa cadeia (o Dia, 30/4/98). 

Eu não tive necessidade de retratação porque nunca cedi a radicalismos nem de direita, nem 
de esquerda. Minha punição foi não passar de uma carreira pública medíocre, por insistir em 
dizer a verdade antes do tempo, pecado que a política não perdoa. Quando jovem, no início da 
II Guerra, parecia inevitável a vitória do Eixo sobre as "democracias decadentes". Mas eu 
respondia aos que assim profetizavam: 

- Hitler é apenas um Napoleão que nasceu falando alemão, com a desvantagem de não ter 
feito nada comparável ao Código Napoleónico. 

Também não me iludi com o totalitarismo de esquerda, por um raciocínio simples. Deus não é 
socialista. Criou os homens profundamente desiguais. Tudo que se pode fazer é administrar 
humanamente essa desigualdade, buscando igualar as oportunidades, sem impor resultados. 
De outra maneira, estaríamos brincando de Deus, ao tentarmos refabricar o homem. É o que 
tentaram fazer Marx e Lenin, com os resultados conhecidos: despotismo e empobrecimento. 



Isso me levou, ainda jovem, a acreditar que o sistema político ideal seria o capitalismo 
democrático, isto é, o casamento da democracia política com a economia de mercado. 
Parodiando Churchill, pode-se dizer que o capitalismo é o pior dos sistemas económicos, 
exceto todos os outros; e a democracia é o pior sistema político, excetuado todos os outros. 

Mas se não tive de recitar o "confiteor" por ter optado pelo sistema errado, fui obrigado a 
fazer retificações de rumo. Em minha juventude, acreditava no Estado planejador e motor do 
desenvolvimento. Curiosamente, meu desapontamento começou quando, como Ministro do 
Planejamento, visitei a União Soviética em 1965. Assustei-me com a presunção dos burocratas 
do Gosplan. Ignorando o consumidor, eles planejavam, com ridícula minúcia, a quantidade e a 
qualidade dos bens de consumo. Acabavam produzindo o que o consumidor não queria 
consumir. E verifiquei que o planejamento central já era ridicularizado na sabedoria das 
anedotas polulares. Chiste corrente em Moscou, originário da rádio Yerevan, da capital da 
Armênia, dizia que uma professora pedira a um de seus alunos para conjugar o verbo 
"planejar". Mal começou o aluno a balbuciar "eu planejo, tu planejas, ele planeja a 
professora perguntou-lhe: "Que tempo do verbo é esse?" - Tempo perdido", respondeu o 
aluno. 

Embrenhei-me depois na leitura dos liberais austríacos, como Von Mises e Hayek, 
convencendo-me de que planos de governo são "sonhos com data marcada". Antes, queria 
que o governo fosse um engenheiro social, modelando o desenvolvimento. Hoje rezo para que 
ele seja apenas um jardineiro, adubando o solo, extraindo ervas daninhas e deixando as 
plantas crescerem ... E um samaritano competente, para cuidar do social. 



OS PARADOXOS DE KENNEDY 

Um dos mais embaraçoso episódios de minha carreira diplomática, quando embaixador em 
Washington, foram duas inesperadas indagações que me fez o presidente Kennedy, ao fim de 
uma conversa relativa à implementação do acordo Kennedy-Goulart sobre a transformação, 
em nacionalizações negociadas, das encampações confiscatórias feitas pelo governador Brizola, 
de empresas americanas de telefonia e eletricidade. Eliminar-se-ia, assim, uma área de atrito. 

Ao me despedir, Kennedy dardejou-me duas instigantes perguntas: 

- "Por que , disse ele, no Brasil e na América Latina, há um viés favorável, entre estudantes, 
escritores e artistas, ao modelo soviético, maquilado de "socialismo real"? Deveria ser o 
contrário. Os estudantes adoram mudanças e a sociedade mais experimental do mundo são os 
Estados Unidos, com sua multiplicidade de raças e religiões, pluralismo político e abertura a 
inovações. Quanto aos escritores e artistas ... presume-se que desejem liberdade criadora de 
pensamento e expressão. É precisamente isso que inexiste na União Soviética, onde a doutrina 
do "realismo socialista" condena o individualismo criador e transforma artes e artistas em 
instrumentos de propaganda partidária, sob pena de patrulhamento, gulags, exílios e privação 
dos direitos civis? 

Confesso que fiquei embaraçado, sem resposta direta àquilo que chamei de "paradoxos de 
Kennedy". 



- Quanto aos jovens, balbuciei, parece que a rebeldia natural da idade se transforma em 
preconceito contra o mais forte e o mais poderoso. Os mais poderosos só podem aspirar a ser 
respeitados, nunca amados. A juventude tem encanto por utopias e o capitalismo é rico na 
produção de mercadorias, porém não na produção de mitos. Para os jovens, a fórmula do 
dinamite é mais fácil que a do cimento armado. E acrescentei que talvez Bernard Shaw tivesse 
razão ao dizer que a juventude é uma coisa maravilhosa, sendo pena desperdiçá-la nas 
crianças. 

Mais difícil, acrescentei, é explicar a abundância de intelectuais de esquerda. E, bancando o 
erudito, citei a teoria de Raymond Aron, cujo livro "L'opium des intellectuels" eu conhecia bem, 
por ter prefaciado a edição brasileira. Diz Aron que o surgimento do "socialismo real" criou 
mitos substitutivos dos velhos deuses do Iluminismo: o Progresso, a Razão e o Povo. O novos 
deuses seriam: o mito da Esquerda, o da Revolução e o do Proletariado. Os intelectuais se 
seduziram por uma espécie de romantismo revolucionário, considerando as reformas 
"enfadonhas e prosaicas" e a revolução "excitante e poética". O culto marxista da revolução 
violenta virou uma espécie de refúgio do pensamento utópico. 

Para um político pragmático como Kennedy, interessado na melhora imediata da imagem de 
seu país entre os latino americanos, minhas divagações eram um lance errado. Ele queria 
respostas e eu desovava perplexidades. Há um outro paradoxo que Kennedy não mencionou. É 
que os socialistas, que tanto falam nas massas, não foram os criadores nem do consumo de 
massa, nem da cultura de massa. Essas massificações equalizantes foram produzidas pela 
cultura individualista americana. Hollywood foi uma criação de judeus provindos em grande 
parte dos guetos da Europa Oriental, vítimas de pobreza e discriminação e por isso obcecados 
com a idéia de criar fábricas de sonhos. O cinema, originado no Ocidente, talvez tenha sido a 
primeira "cultura de massa" do mundo, agora ampliada pela televisão e pela Internet, também 
em criações capitalistas. 

Meditei muito ao longo de vários anos e até hoje não tenho respostas. Como explicar a mansa 
aceitação entre nós da cultura americana do jazz, do rock, do fast food, do cinema, acoplada a 
uma rejeição zangada da cultura do capitalismo democrático que lhes deu origem? 

Como explicar que intelectuais de esquerda, que em seu país lutaram pela liberdade criadora e 
pela dignidade da pessoa humana, tivessem simpatizado, ao longo de vários anos de guerra 
fria, com um sistema que institucionalizava a delação, a censura, os expurgos e os gulags. Um 
sistema tão repressivo que levou ao suicídio grandes poetas como Mayakovsky e Ossip 
Mandelstan; que submeteu à censura política óperas de Shostakovich e obrigou filósofos como 
George Lukcás a humilhantes retratações. 

É uma espécie de esquizofrenia ideológica, que se traduziu em mutilação de corpos e almas 
em nome da utopia. É por isso que não gosto das utopias. Como disse o politólogo Raif 
Dahrendorf: "Nada mais anti-liberal que a utopia, que não deixa lugar para o erro nem para a 
correção". 



A CADEIRA DA UBERDADE 



O fundador da "cadeira da liberdade" foi José do Patrocínio, jornalista, panfletário, romancista 
e sobretudo formidável orador. Na tribuna, chamavam-no de "Tigre". O título que mais 
prezava era o de "Herói da Abolição". Contribuíra tanto ou mais que Nabuco ou Rui Barbsoa 
para a liberação de 1,6 milhão de escravos em 1888. Era capaz de incendiar multidões quando 
descrevia o sofrimento dos escravos, a mutilação de suas vidas e a desumanidade da opressão. 
Ao ouvi-lo, Euclydes da Cunha o descrevia como um "tumulto feito homem". Melhor orador e 
jornalista que romancista, legou-nos quatro romances, dois dos quais são uma mistura de grito 
de angústia e panfleto social. O primeiro, "Motta Coqueiro", é um libelo contra a pena de 
morte. O segundo é um pungente relato do sofrimento imposto pela grande seca do Nordeste 
em 1877. Uma coisa interessante é a denúncia por Patrocínio da corrupção das "comissões de 
socorro", que intermediavam as verbas entre o "Retirante" e o "Estado". Eram um sorvedouro, 
fazendo com que os assistentes ficassem melhor que os assistidos. Hoje, 122 anos depois, 
continuamos despreparados para as secas e ainda se fala na "indústria da seca", pois há 
enorme vazamento de recursos em benefício de intermediários, burocratas e políticos. Isso 
testemunha que nossa capacidade de indignação é muito maior que nossa capacidade de 
organização. 

José do Patrocínio morreu de tuberculose, cirrose e, porque não dizê-lo, também de pobreza. 
Esgotara-se sua grande tarefa salvacionista, e com ela murchou seu poder de mobilização. 
Vivia num casebre e sobrevivia de biscates jornalísticos. Daí, como relata seu filho, uma 
tragédia irónica. Ao morrer, em 1905, redescobriu-se o "Grande Homem". Providenciaram-se 
funerais de estado, coches de gala, crepes nos lampiões, cavalos cobertos de pluma negra e 
seu corpo embalsamado ficou exposto numa igreja por 15 dias. Mas no oitavo dia após a 
morte, sua família teve de deixar o casebre em que vivia, sob mandato de despejo. 

José do Patrocínio escolheu para patrono Joaquim Serra, poeta, jornalista e dramaturgo (pois 
foi um dos fundadores do Teatro de Revista) mas sobretudo um colega de combate nas lutas 
em favor da Abolição. Segundo André Rebouças, foi o político que mais escreveu contra os 
escravocratas. Era um filósofo platónico, que se seduziu pelo positivismo de Augusto Comte. 
Se outros títulos lhe faltassem, bastaria lembrar que a legenda republicana "Ordem e 
Progresso" foi título do jornal de província que fundara em 1862. 

Mário de Alencar foi o segundo ocupante da cadeira. Tímido e recluso, ofuscado pela imagem 
do pai, José de Alencar. Eram dois momentos do Brasil. O pai trouxe-nos a imagística do Brasil 
primitivo e bravio com caciques, lutas na selva e cachoeiras selvagens. Mário de Alencar, de 
outro lado, fazia do culto da beleza moral seu estilo de vida. Seu modelo era Sócrates, sábio 
em vida para ser corajoso na morte. Versava, com um toque de pessimismo que o aproximava 
de Machado de Assis, temas da vida urbana na poesia e na ensaística. Curiosamente, tendo 
publicado seus primeiros versos - "Lágrimas" - aos 15 anos, por timidez e excessiva auto-crítica, 
publicou muito menos do que escreveu. Coube a seus filhos promover a edição do romance 
"Sombra", além dos poemas "Goethe" e "Prometeu". Como disse Álvaro de Almeyda, 
detestava oradores e jornalistas e metia-se na solidão para ser livre. 

O terceiro ocupante foi Olegário Mariano, poeta vocacional. Dizia - "Não pretendo ser mais 
que um poeta, bastando-me pouco para conseguir tudo". Essa posição é corajosa, pois os 
poetas, como nada nesse mundo, não têm aceitação unânime. Lembra-nos Gustavo Barroso: 



"Platão queria banir de sua república ideal os poetas como inimigos da verdade. E Santo 
Agostinho propunha infamá-los - como aos comediantes". Olegário foi talvez o último dos 
parnasianos. Ainda aprisionado pelo culto das formas, sem o verso solto do modernismo que 
surgiria com Manuel Bandeira e Carlos Drumond de Andrade. 

Ao contrário de seu antecessor, que tinha uma visão pessimista da peripécia humana, Olegário 
era essencialmente um lírico otimista, de bem com a vida. Foi o poeta das cigarras, dos 
pássaros, dos cães de rua, dos nomes femininos e dos rios solenes, que moldam as cidades. 
Releio-o com nostalgia e um certo grau de manso desconforto, pois sempre preferi a diligência 
das formigas à displicência da cigarras. Alguns dos seus versos são dos mais belos que já vi, 
como no diálogo das duas sombras no "Água Corrente": 

"Eu nasci de uma lágrima. Sou flama 

Do teu incêndio que devora. 

Vivo dos olhos tristes de quem ama, 

Para os olhos nevoentos de quem chora" 

Personalidade curiosa foi o quarto ocupante, Alvaro Moreyra, jornalista, poeta e teatrólogo 
que, transposta a fase boémia da juventude, seduziu-se pela utopia social da Revolução de 
Outubro de 1917. Declarava-se comunista, mas era mais pose que convicção, pois não tinha 
suficiente capacidade de odiar para se engajar na luta de classes. Pedia bênção à Deus todos 
os dias e tinha intimidade com os santos, particularmente São Francisco de Assis, que ele 
chamava de "Chiquinho". O franciscano, amante dos pobres, dos pássaros e da "Soror Acqua", 
foi uma espécie de ecologista medieval, pois assim cantou no "Cântico dei Sole": 

"Laudato sia il mio signore per suora acqua, 

La quale é molto utile et humile et pretiosa et casta". 

Poeta e depois prosador, Álvaro fabricou alguns dos mais belos poemetos que conheci, como 
por exemplo no seu livro "A lenda das Rosas": 

"Pobre cega, porque choram tanto assim estes teus olhos? 

Não, os meus olhos não choram 

são as lágrimas que choram 

Com saudade dos meus olhos" 

Alvaro era um poderoso fazedor de aforismos, como esse: 

- O meu maior prazer é mudar de opinião. Com esse prazer vou evitando a velhice. E 
confirmou isso. Depois da poesia e do jornalismo, dedicou-se, a partir de 1927, à criação 
teatral, com seu "Teatro de Brinquedo", que tinha uma legenda de Goethe: "A humanidade 
divide-se em duas espécies: a dos bonecos, que representa um papel aprendido, e a dos 
naturais, espécie mais numerosa, de entes que vivem e morrem como Deus os fez". 



Dias Gomes considera que com "O teatro de brinquedo" Álvaro contribuiu para que o teatro, a 
única arte que não participara da Semana de Arte Moderna, começasse uma tarefa de 
renovação que possibilitaria depois a revolução cénica e dramatúrgica dos anos 50 e 60. 

O quarto ocupante da cadeira foi Adonias Filho. Pertencia em Salvador à "Ação Integralista", 
sem que isso embaraçasse sua amizade com Jorge Amado, que labutava na "Juventude 
Comunista". Quando ingressou nesta Academia, já um dos próceres importantes da Revolução 
de 1964, insistiu em ser recepcionado por Jorge Amado, que então era considerado, em alguns 
círculos militares, como "subversivo pornógrafo". 

Adonias pertencia à geração literariamente fecunda da região dos cacaueiros. Foi um 
romancista anti-romântico, como dizia Jorge Amado, num mundo de espanto e de terror, onde 
"os seres não são de bondade e ternura, mas sobreviventes que podem virar algozes". Sua 
significação especial é que marcou uma espécie de "divisor de águas". Ao contrário da 
literatura dos anos 30, em que a natureza bela e seivosa parecia mais importante que o 
homem, na literatura de Adonias prevalece o bicho homem, sem doçura e esperança, face a 
taboleiros árduos e vazios, onde a enxada tinha sempre como alternativa o punhal. 

Adonias procurou dar dimensão universal ao regionalismo. Rachel de Queiroz nele descobre 
traços dostoiewskianos diferentemente infletidos. No mestre russo, os elementos dramáticos 
são impregnados de conflitos religiosos e morais - pecados que levam à danação - enquanto 
que as personagens de Adonias são ligadas a códigos de instinto, na disputa pela terra, sob as 
agressões do desemprego, desesperança e vingança. Alguns, como nota Dias Gomes, 
consideram sua prosa enxuta e sincopada, comparável à de Machado de Assis, Graciliano e 
Guimarães Rosa, sem ter jamais alcançado prestígio remotamente parecido. Talvez tenha 
havido uma censura recôndita por causa do seu passado integralista, absurdamente 
considerado como um desengajamento das questões sociais. 

Seus primeiros romances, os da zona cacaueira, como "Corpo Vivo", e "Memórias de Lázaro" 
são romances de vingança e desesperança. Há depois romances da raça negra, da saga de 
liberação frustrada e finalmente uma terceira fase, a do romance "O forte", passado em 
Salvador, e já impregnado de paixão, misticismo e rendição à esperança. 

À parte o mérito literário de seu estilo de tragédia grega, Adonias sempre conseguiu superar 
disputas ideológicas de personalismo injurioso ou censura à criação cultural. Como disse Dias 
Gomes: - Saltando o largo fosso das ideologias, mas distinguindo amigos e inimigos, usou seu 
prestígio para reparar injustiças, defender perseguidos, evitar crueldades. 

Inclusive, conta-nos Jorge Amado, sustando processos de alguns intelectuais de esquerda que 
o haviam maltratado e deles se vingariam se chegasse ao poder..." 



O CASAL DE DRAMATURGOS 

Dizia Langston Hughes, grande poeta negro americano, que "a boa canção é aquela que fica 
zumbindo teimosamente nos nossos ouvidos". Grande peça teatral é aquela que consegue 
transformar figuras do palco em presenças do nosso quotidiano e peças do nosso folclore. Sob 



esse aspecto, Dias Gomes é um grande dramaturgo. Suas criaturas no teatro, e depois no 
cinema e televisão, - "Zé do burro", "Branca Dias", "Odorico o Bem Amado", "Roque santeiro" 
e a "Viúva Porcina", são hoje inquilinos de nossa paisagem. É impossível analisar a vida e a 
obra de Dias Gomes sem mencionar Janete Emmer, sua esposa por 33 anos, que adotou o 
sobrenome artístico de Clair, apaixonada que era pelo "Clair de Lune", de Debussy. Se Dias 
Gomes foi um inovador como dramaturgo, Janete foi pioneira nas telenovelas, com sucessos 
inesquecíveis tais como "Irmãos Coragem", "Selva de Pedra", "O Astro" e "Pecado Capital". 
Esta foi escrita apressadamente para a TV Globo, a fim de substituir a peça "Roque Santeiro", 
de seu marido, que ficou suspensa por dez anos, no período mais obscurantista da censura 
militar. Depois de 1985, "Roque Santeiro" tornou-se um grande sucesso televisivo. 

Dias Gomes se descreve, em sua interessante e provocante autobiografia, como "Um 
perseguido precoce". Escreveu sua primeira peça a "Comédia dos moralistas", aos 15 anos e a 
peça "Pé-de-Cabra", aos 18 anos. Esta fora encomendada por Jaime Costa por antagonismo a 
Procópio Ferreira, e ironicamente acabou por este próprio encenada, quando Dias Gomes não 
passava dos 20 anos. Não sem castração pela censura, de dez páginas, incidente que ensinou 
Dias Gomes a driblar os censores de vários governos, todos de saudável burrice na prática do 
métier. A peça foi considerada "marxista" numa época em que Dias Gomes nem sequer lera 
Marx. 

É difícil escolher, na vasta produção do dramaturgo as melhores obras. Diga-se de início que, 
apesar de sua versatilidade, escrevendo tanto para o teatro como para o rádio e televisão, Dias 
sempre considerou o teatro sua principal vocação. Dizia que o teatro é a única arte que usa 
como expressão "a criatura viva, sensível e mortal". Outras artes como o cinema, a pintura, a 
escultura, refletem a criatura humana através de imagens captadas, mas não a apresentam 
viva. Acrescentava que à televisão faltava "poder de conscientização" e "perenidade", 
enquanto "o teatro respira eternidade". Inconscientemente, Dias Gomes incide num elitismo 
subliminar. É verdade que o teatro foi originalmente uma arte comunal e, portanto, "popular", 
como nos anfiteatros gregos. Mas gradualmente se tornou uma arte intimista frequentada 
pela elite burguesa. A democratização da mensagem viria com a televisão, e hoje a Internet, 
ambas invenções capitalistas. Jorge Amado escolheu dez peças como sendo o núcleo central 
da obra de Dias:- "O Pagador de Promessas", "A Revolução dos Beatos", "O Bem Amado", "O 
Berço do Herói", "A Invasão", "O Túnel", "Os Campeões do Mundo", "Amor em Campo 
Minado" e "Meu Reino por um Cavalo". 

Leon Liday, o teatrólogo que mais conhece e admira a obra de Dias Gomes, elege como suas 
preferidas "O Pagador de Promessas", "O Berço do Herói" e "Vargas". 

"O Pagador" seria nitidamente realista, o "Berço do Herói" e "O Santo Inquérito" nitidamente 
expressionistas. Aquela uma sátira mordaz e a segunda um drama histórico-lendário altamente 
surrealista. "Vargas" é também um drama histórico-lendário, porém musicalizado sob a forma 
de um samba de enredo. Minhas preferências são pelo tríptico - "O Pagador de Promessas", "O 
Santo Inquérito" e "A Revolução dos Beatos". As duas primeiras são chamadas por Anatol 
Rosenfeld, o grande crítico teatral, de "misticismo popular". 

- "O pagador", esclarece Dias Gomes, em resposta a alguns críticos, não é uma peça anti- 
clerical. É uma peça contra a ignorância e o fanatismo, uma fábula sobre a liberdade de 



escolha". Versa três conflitos. O primeiro é o do catolicismo com o sincretismo, advindo da 
mistura dos símbolos cristãos (Santa Bárbara) com o candomblé (lansan); o segundo é o do 
conflito entre o simplismo sincero do sertanejo e o formalismo inflexível do clérigo, o terceiro 
é o choque psicológico e moral resultante da incapacidade de comunicação entre a 
ingenuidade cabocla e a malta de jornalistas, rufiões e prostitutas da cidade. Esses exploram o 
exoticismo arcaico da pobreza do "Zé doBurro"de caminhar 43 quilómetros, dilacerando seus 
ombros sob cruz pesada, para cumprir promessa feita a Santa Bárbara (ou lansan) por ter salvo 
o burro Nicolau. Há um toque rousseaunista no contraste entre o camponês puro e a cidade 
perversa. O burro humaniza o homem e os homens emburrecidos sacrificam "Zé", o pagador 
de promessa. A cena do "Zé do Burro", que só cumpriu seu rígido voto depois de morto, 
quando a multidão arromba as portas da igreja, é de grande pungência. 

Isso explica o enorme sucesso da peça aqui e no exterior. Desde sua estréia em 1960, foi 
traduzida para mais de dez línguas e exibida pelo menos seis vezes nos Estados Unidos, e em 
numerosos outros países dos dois lados da guerra fria. Ganhou em 1962 o prémio "Palma de 
Ouro" do Festival de Cannes, numa versão cinematográfica dirigida por Anselmo Duarte. Isso 
atesta que Dias Gomes conseguiu transformar um drama regional num apelo universal contra 
a intolerância. 

A segunda peça de minha preferência é "O Santo Inquérito". A Inquisição não é peculiaridade 
católica, pois os puritanos de Massachusets queimaram as bruxas de Salem, em 1692, evento 
recordado pelo grande dramaturgo americano, Arthur Miller, em sua peça "Crucible". 

"O Santo Inquérito" versa um tema diferente: a colisão entre o sexo e a religião. A bela Branca 
Dias, que foi vista banhando-se nua à luz do luar, cometeu dois erros: aprendeu a ler, o que lhe 
facultava leituras proibidas, e beijou na boca o padre Bernardo para livrá-lo do afogamento. 
Esse piedoso ato de salvação é visto como concupiscência. Branca acaba perdendo as pessoas 
que mais amava por causa da obsessão de padre Bernardo, que por ela desenvolveu desejos 
pecaminosos. Oficial do Santo Ofício, procurou induzi-la no processo a retratar-se de faltas que 
não praticara, como se a confissão do próximo fosse uma auto purificação do pecador. 

A terceira peça de minha triologia é "A Revolução dos Beatos". Se "O Pagador' é um libelo 
trágico contra o misticismo fanático, "A Revolução dos Beatos" é um libelo satírico contra a 
manipulação política do fanatismo religioso. Dessa arma satírica Dias Gomes depois se 
utilizaria habilmente em peças como "Odorico bem amado" e "Roque Santeiro". 

Curioso truque de Dias Gomes é a "animalização da bondade". No "Pagador" é o burro Nicolau 
que tem "alma de gente", e na "Revolução dos Beatos" é o Boi Santo, presenteado pelo 
político Flório ao Padre Cícero, que fazia milagres. Atendendo, inclusive, à safada súplica de 
Bastião para induzir Zabelinha a se enrabichar por ele. O último texto que eu gostaria de 
comentar é a auto-biografia de Dias Gomes, uma mistura deliciosa de humor, história familiar 
e engajamento político literário. 



O TEXTO SEM CONTEXTO 



Comentei com maravilhamento alguns textos de Dias Gomes. Falta falar sobre o contexto 
histórico dos anos da guerra fria, que ele e eu vivenciamos, fazendo ambos apostas 
divergentes sobre o curso da história. Tanto em seu discurso de posse nesta Academia como 
em sua auto-biografia, Dias Gomes desfolha um libelo contra os chamados "anos de chumbo" 
do período militar, com seus excessos repressivos e mutilação das liberdades, esquecendo-se 
de interpretar a peripécia brasileira no contexto da guerra fria. Não se menciona sequer 
minimamente alguns aspectos construtivos, como o fato de o Brasil nesses anos ter passado 
da retaguarda incaracterística dos emergentes para a posição de oitava potência industrial do 
mundo. E tudo se passa como se o autoritarismo no Brasil fosse uma exótica perversão 
somente acontecida no Trópico do Capricórnio. 

Um mínimo de análise histórica comparativa teria levado Dias Gomes a fazer um balanço mais 
benigno. Samuel Huntington, o famoso politólogo de Harvard, defendeu a tese das ondas e 
refluxos periódicos da democratização no mundo. Na década dos 60 e começo dos 70 teria 
havido uma guinada autoritária mundial, de tal forma que um terço das sociais democracias 
que funcionavam no pós-guerra acabassem interrompendo seus processos democráticos. 

Na América Latina surgiram vários regimes, que 0'Donnell e Huntington chamam de 
"autoritarismos burocráticos". No Brasil e Bolívia, em 1964; na Argentina em 1966; no Peru em 
1968; no Equador em 1972; no Uruguai em 1973. Houve golpes militares na Coréia do Sul em 
1961; na Indonésia em 1965; na Grécia em 1966. Em 1975, foi imposta a lei marcial nas 
Filipinas e Indira Gandhi declarava um regime de emergência na índia. A rigor, o pioneirismo 
da guinada autoritária, desta vez em favor da esquerda, foi o de Fidel Castro em Cuba, o qual 
ascendeu ao poder em 1959, aderiu ao comunismo pouco depois e aparentemente não tem 
planos para deixar o poder. 

É paradisíaca a visão até hoje mantida por vários intelectuais de esquerda que o Brasil em 
1964 tinha uma opção tranquila entre a liberal democracia e a social democracia. A real opção 
era entre um autoritarismo de esquerda e um autoritarismo de centro direita, que se dizia 
transicional. No Brasil, tivemos um autoritarismo encabulado, que se sabia biodegradável, que 
admitia o pluripartidarismo, que mantinha, ainda que manipuladas, instituições democráticas, 
que postulava a restauração democrática como objetivo último da evolução social. Isso é 
diferente dos autoritarismos totalitários, ideologicamente rígidos, sanguinários quanto a 
dissidentes, e convictos de que o determinismo histórico asseguraria a ditadura da classe eleita 
- o proletariado. 

Melancólicas veramente eram nossas alternativas nos primeiros anos da década dos 60, 
quando a guerra fria atingia seu apogeu:- ou anos de chumbo ou anos de aço. Alhures, os anos 
de aço duraram 72 anos na União Soviética, quase meio século na Cortina de Ferro e ainda há 
espécimes ditatoriais sobreviventes. 

Dias Gomes tem razão em verberar, a posteriori, a idiotice da censura, o sofrimento de 
idealistas torturados, o amargor dos exilados. Que esses dilaceramentos do tecido social não 
se repitam mais. 

Mas os anos de chumbo tiveram derretimentos que jamais ocorreriam se tivéssemos "anos de 
aço". Um "derretedor de chumbo" já citado, foi Adonias Filho que combatia as ideologias mas 



respeitava os ideólogos. Outro foi nosso ilustre confrade Roberto Marinho. As "Organizações 
Globo", tidas como bastião do capitalismo reacionário, deram, no interregno autoritário, 
guarida a vários intelectuais e artistas de esquerda, que receberam sustento sem exigência de 
conformismo esterilizante. 

Desde 1969 foi lá que se abrigaram Dias Gomes e Janete, por quase três décadas, para 
produzir obras que serão o encanto de várias gerações. Não sofreram constrangimentos 
ideológicos, como reconhece o próprio Dias. E os profissionais da organização o ajudaram-no 
muitas vezes a driblar a censura e a preservar, sob pseudónimos, a mensagem fundamental do 
dramaturgo. 

Uma vez, conversando com o nosso ilustre confrade Roberto Marinho, apontei-lhe 
contradições entre o tom conservador dos editoriais, de um lado, e os cabeçalhos e noticiários 
enviezados, de outro, que desmereciam a classe empresarial e as idéias liberais. 

Definitivamente, nosso confiável confrade nem sempre dá conselhos confiáveis. Quando lhe 
pedi que partilhasse comigo o segredo de sua fecunda longevidade, respondeu-me: saltar a 
cavalo e fazer pesca submarina. - Logo eu... que não gosto de cavalos e detesto o cheiro de 
peixe. 

Digo estas coisas para acentuar o contraste entre a repressão dos "anos de chumbo" e o que 
seria a repressão dos "anos de aço", que teríamos de atravessar se vitoriosa a aposta de 
muitos de nossos intelectuais na opção comunista. Consideremos o diferencial de sofrimento. 

Dois dos maiores nomes da literatura mundial - Bóris Pasternak e Solzhenitsyn - ganharam o 
prémio Nobel em 1958 e 1975, respectivamente, durante os anos de aço. E experimentaram 
incríveis perseguições. Foram ambos expulsos da União dos Escritores Soviéticos, o que 
naquele regime fechado significa desemprego e morte civil. Solzhenitsyn foi preso em 1974, 
acusado de traição pela publicação, no exterior de sua grande obra "O Arquipélago Gulag". Na 
Rússia somente 25 anos depois foi autorizada sua publicação na revista literária "Novy Mir". 
Foi exilado da União Soviética, passando a viver nos Estados Unidos e só então poude ter 
acesso ao seu Prémio Nobel. 

Pasternak teve de renunciar ao Prémio Nobel. Sua obra prima - Dr. Zhivago - que chegara ao 
exterior em 1957, através de manuscritos contrabandeados, só foi autorizada na Rússia em 
1985, 28 anos depois! Consta que só escapou dos expurgos de Stalin, nos anos 30, porque 
havia traduzido para o russo poemas de poetas georgeanos, compatriotas de Stalin. 

Dolorosa foi a carreira de Ana Akhmatova, talvez a maior poetisa russa desde Puskhin. Seu 
marido foi executado em 1921 e seu filho preso e exilado para a Sibéria em 1949, ambos por 
"não conformistas". O Comité Central do Partido Comunista condenou sua obra poética em 
1946 por seu "eroticismo, misticismo e indiferença política". Foi também expulsa da União dos 
Escritores Soviéticos e por três anos proibida de escrever qualquer coisa. Sua mais longa obra, 
"Poema Sem Herói", escrita entre 1940 e 1962, só teve sua publicação autorizada 14 anos 
depois. 

Outra grande figura da física nuclear, Sakharov, que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 1975, 
foi em 1980 despojado de todos os seus títulos e vantagens como grande cientista, e exilado 



para a cidade fechada de Gorki. Só em 1986, após a "glasnost" de Gorbachev foi autorizado a 
retornar a Moscou. 

Definitivamente os "anos de aço" foram mais brutais que os "anos de chumbo". 

Nem adianta dizer que a utopia socialista não se realizou na Rússia, mas realizar-se-ia alhures. 
Há uma brutalidade ínsita no marxismo-leninismo, que se manifestou tanto no socialismo 
louro da Europa Oriental, como no socialismo moreno do Caribe, no socialismo negro dos 
africanos e no socialismo amarelo da China e do Vietnam. A violência é da natureza da besta... 



CONVITE TRISTE 

Agora que conheço bem a obra de Dias Gomes, lamento não tê-lo conhecido em pessoa. 
Minha paisagem humana e cultural ficou com isto muito mais pobre. Se o encontrasse, seduzi- 
lo-ia para um encontro de fim de tarde, recitando-lhe o "Convite triste", de Carlos Drummond 
de Andrade. 

"Meu amigo, vamos sofrer, 
vamos beber, vamos ler jornal, 
vamos dizer que a vida é ruim, 
meu amigo, vamos sofrer. 
Vamos fazer um poema 
ou qualquer outra besteira... 
Vamos, beber uísque, vamos... 

Eu lhe prometeria que não seria uísque nacional e que falaríamos mal do Governo, qualquer 
Governo. Pois, como dizia Milton Campos, "falar mal do Governo é uma coisa tão gostosa que 
não pode ser privilégio da oposição". 

Certo estou que ao fim de algumas rodadas, talvez na curva do conhaque, estaríamos do 
mesmo lado da cerca, concordando com as seguintes premissas: 

- "Todas as revoluções passam e, como nos alertou Franz Kafka, "só fica o lodo de uma nova 
burocracia"; 

- Só há uma coisa errada com a palavra revolução. É a letra R; 

- Há gente demais levantando muros e gente de menos construindo pontes. 

Que pena, não ter tido um "papo cabeça" com Dias Gomes. Que pena, m,eu Deus... 
NA VIRADA DO MILÉNIO 



Espera-se de um economista que diga algo sobre perspectivas económicas. Hesito em fazê-lo, 
não só porque é perigoso profetizar (especialmente sobre o futuro), como porque minha 
profissão não está em odor de santidade. Diz o populacho que nossos prognósticos são ainda 
menos confiáveis que as previsões meteorológicas do INPE e que quem acredita nos 
planejadores económicos deveria olhar para o camelo: "é um cavalo desenhado por um comité 
de economistas". Chego a esta Academia em fim de século e começo de milénio. 

Este século foi o pior dos séculos. Este século foi o melhor dos séculos... Foi o pior dos séculos 
porque, em duas guerras mundiais e em conflitos ideológicos, religiosos, raciais e tribais, 
estima-se que pereceram cerca de 170 milhões de pessoas. Mais que o total de mortos em 
guerras, desastes e pestes desde o começo da história humana. E foi também o melhor dos 
séculos, porque nele houve coisas milagrosas: 

- A descoberta do segredo do átomo (para o bem ou para o mal); 

- A descoberta do segredo da vida (a dupla hélice); 

- A morte da distância e o encurtamento do tempo; 

- A escapulida de nossa prisão orbital, para bolinarmos outros planetas e, quiçá, estrelas; 

- O rompimento, por centenas de milhões de pessoas, dos grilhões da pobreza ancestral. 

A pobreza deixou de ser uma fatalidade, para se tornar o subproduto de opções erradas e os 
desvios de comportamento. Conhece-se, hoje, a grande síntese do crescimento: estabilidade 
de preços na macroeconomia; competição na microeconomia; abertura internacional; e 
investimentos massiços no capital humano. "De nada valem a torre nem a nave", dizia Sófocles, 
"sem o homem". 

A sociedade do próximo milénio será uma sociedade globalizada e digitalizada. Ignorar essas 
coisas seria auto-mutilação. Nossa linguagem girará em termos de bits, muito mais que de 
"átomos". Na era digital, até os "literatos" terão de virar "digeratos". 

A primeira coisa a fazer-se no Brasil é abandonarmos a chupeta das utopias em favor da 
bigorna do realismo. É tempo de balanço e autocrítica. E, sobretudo, de ginástica institucional, 
a fim de nos prepararmos para a quarta onda de crescimento do pós-guerra, que 
provavelmente advirá na primeira década do milénio, apoiada em três revoluções 
tecnológicas: 

- A revolução da Internet, que eliminará vários constrangimentos de tempo e espaço; 

- A revolução da engenharia genética, que depois do facasso da engenharia social em reformar 
o homem moral, pode ter sucesso na reformatação do homem físico; 

- A revolução da nano-tecnologia que, pela miniaturização, substituirá nos produtos, cada vez 
mais o insumo físico pelo insumo cognitivo. 

Para a minha geração, confiante em que o Brasil chegaria ao ano 2000 não como país 
emergente e sim como grande potência, forte e justa, este fim de século é melancólico. 



Estamos ainda longe demais da riqueza atingível, e perto demais da pobreza corrigível. Minha 
geração falhou. Confiteor. 

Agradeço aos benévolos confrades terem aceito em sua grei uma personalidade controvertida. 
Prometo-vos, em verdade vos prometo, agir como os mulçumanos que descalçam suas 
sandálias na porta da mesquita, para não contaminá-la com a poeira, o barro e o estrume das 
ruas. Descalçarei minhas botas ideológicas nos umbrais desta Casa. E aqui obedecerei 
fielmente à regra de Joaquim Nabuco, em seu discurso inaugural de secretário geral, na sessão 
de 20 de julho de 1897: 

"Eu confio, disse ele, que sentiremos todos o prazer de concordar em discordar; essa 
desinteligência essencial é a condição da nossa utilidade, o que nos preservará da 
uniformidade académica. Mas o desacordo tem também o seu limite, sem o que 
começaríamos logo por uma dissidência". 

Interpreto meu ingresso nesta Academia, menos como uma sóbria avaliação de meus méritos 
pessoais, do que como uma homenagem ao meu estado natal - Mato Grosso - que nos 102 
anos de vida deste sodalício só teve um representante, Dom Aquino Correia, arcebispo de 
Cuiabá, falecido em 1956. Era filósofo, escritor e poeta, capaz de versejar com igual aisance em 
latim e em português. Personalidade eminente e pacificadora, foi também presidente do 
Estado, em situação emergencial, unindo assim o poder espiritual do arcebispado com o poder 
temporal da governança. Essa fusão dos dois poderes era privilégio dos papas antigos. 
Certamente não espero repetir tal façanha, mas espero não desmerecer da presença culta de 
Dom Aquino neste sodalício, nem apequenar a representação de meu Estado. 

Agradeço a presença do governador em exercício de Mato Gosso, José Rogério Salles, e do 
eminente presidente da Academia Matogrossense de Letras, João Alberto Gomes Novis 
Monteiro, da qual me honro de ser membro. 

Tenho também uma cidade-pátria adotiva, o Rio de Janeiro. Seu ilustre prefeito aqui presente, 
Luiz Paulo Conde, urbanista de reputação que já transpôs nossas fronteiras, costuma honrar- 
me dizendo que sou senador pelo Rio de Janeiro, pois ganhei eleições aqui na metrópole, 
perdendo no resto do Estado porque nem todo o mundo tem o bom gosto dos cariocas... 

Agradeço ao excelentíssimo senhor presidente da República ter enviado como seu 
representante o ilustre ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, meu dileto amigo, com 
quem fiz várias campanhas políticas, de resultados curiosos: eu pedia votos para mim e os 
votos iam para ele... 

Com Fernando Henrique convivi oito anos no Senado Federal e tínhamos férvidos debates 
sobre capitalismo e liberalismo. Referindo-se ele a um artigo que escrevi sobre liberalismo, 
disse que, apesar de algumas discordâncias, considerava-o de alto nível. Ao que lhe respondi:- 
Pudera... escrito no avião, entre Brasília e Rio, a 10.000 mt de altitude, só poderia ser de alto 
nível... 

Agradeço ainda a presença do ilustre senador Antonio Carlos Magalhães, presidente do 
Congresso, meu velho amigo de andanças e paranças, cujo filho Luiz Eduardo até hoje 
relembro com dolorida saudade. Agradeço também a presença do presidente da Câmara dos 



Deputados, Dr. Michael Temer, sob cujas ordens trabalhei. Poderá ele atestar que fui um 
deputado presente e diligente, e diria até agradável, pois não aborrecia o Plenário com 
grandes falações. 

Agradeço, finalmente à minha família, Stella, Roberto, Sandra e Luiz Fernando, por tolerarem 
minhas ausências e impaciências ao longo de campanhas políticas e académicas. 

Para os que me consideram proprietário de uma visão pessimista da história, não gostaria de 
terminar o milénio com uma nota melancólica. E usarei uma expressão do grande filósofo 
liberal Raymond Aron, menos popular que Sartre em seus dias, mas muito mais correto em 
suas previsões de futuro: "nós perdemos o gosto das profecias, mas não esqueçamos o dever 
da esperança." Academia Brasileira de Letras Av. Presidente Wilson 203, Castelo | CEP 20030- 
021 | Rio de Janeiro | RJ Tel: (21) 3974-2500 | E-mail: academia @ academia.org.br 

BIOGRAFIA ( DE REBUS GESTARUM) 

Sétimo ocupante da Cadeira 21, eleito em 23 de setembro de 1999, na sucessão de Dias 
Gomes e recebido pelo Académico Antonio Olinto em 26 de outubro de 1999. 

Roberto de Oliveira Campos, economista, diplomata e professor, nasceu em Cuiabá, Mato 
Grosso, em 17 de abril de 1917 e faleceu no dia 09 de outubro de 2001, no Rio de Janeiro, RJ. 

Filho do professor Waldomiro Campos e de D. Honorina de Campos, casou-se com Stella e teve 
três filhos - Sandra, Roberto e Luís Fernando. Formou-se em Filosofia em 1934 e em Teologia 
em 1937, nos Seminários Católicos de Guaxupé e Belo Horizonte. Ingressou no Serviço 
Diplomático Brasileiro em 1939, por concurso. Mestrado em Economia pela Universidade 
George Washington, Washington D. C. Estudos de pós-graduação na Universidade de Columbia, 
Nova York. Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova York, NY, 1958. Doutor Honoris 
Causa pela Universidade Francisco Marroquim, Guatemala, 1996. Ex-deputado Federal pelo 
PPB - RJ por duas legislaturas (1990 / 1998), após cumprir oito anos de mandato como senador 
(1982 / 1990) por Mato Grosso, sua terra natal. Foi embaixador em Washington e em Londres. 
Participou, ao lado de Eugênio Gudin, do Encontro de Bretton Woods, que criou o Banco 
Mundial e o FMI - Fundo Monetário Internacional, negociou os créditos internacionais do 
Brasil no pós-guerra (origem da Companhia Siderúrgica Nacional - Volta Redonda), coordenou 
as ações económicas do Plano de Metas do Governo Juscelino Kubitschek e foi ministro do 
Planejamento e Coordenação Económica durante o Governo Castelo Branco. Defensor 
incondicional das liberdades democráticas e da livre iniciativa durante mais de 40 anos, em 
palestras, conferências, livros e artigos, defendeu a inserção do Brasil no contexto da 
economia internacional, com base na estabilidade monetária, na redução do tamanho e da 
influência da máquina administrativa nas atividades produtivas e na modernização das 
relações entre o Estado e a sociedade. 

No seu ideário, estiveram as reformas da Constituição, da Previdência Social, fiscal e partidária, 
além da aceleração do processo de privatização das empresas estatais. Criador do FGTS - 
Fundo de Garantia por Tempo de Serviço -, da Caderneta de Poupança, do Banco Nacional de 
Desenvolvimento Económico (posteriormente com o apêndice Social) e do Estatuto da Terra, 
que se adotado na década de 70, teria evitado os conflitos posteriores. Crítico ferrenho do 



dirigismo estatal, irónico nos comentários sobre as teses e diatribes esquerdizantes e profundo 
observador das transformações sócio-político-econômicas do mundo, Roberto Campos foi, 
também, um juiz de si mesmo. 

Em seu mais comentado livro, A Lanterna na Popa, fez uma auto-avaliação da trajetória como 
diplomata, economista e parlamentar, descrevendo detalhes da convivência com John 
Kennedy, Margareth Thatcher, Castelo Branco, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Jânio 
Quadros. 

Atividades Profissionais: 

Conselheiro Económico da Comissão de Desenvolvimento Económico Brasil-Estados Unidos 
(1951/1953). 

Diretor, Gerente Geral e Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico (1952 / 
5/9). 

Secretário-geral do Conselho de Desenvolvimento Económico (1956/ 1959). 

Professor das cadeiras de Moeda e Crédito e Conjuntura Económica da Faculdade de Economia, 
Universidade do Brasil (1956 / 1961). 

Embaixador itinerante para negociações financeiras na Europa Ocidental (1961). 
Delegado a Conferências internacionais, inclusive ECOSOC e GATT (1959 / 1961). 
Embaixador do Brasil nos Estados Unidos (1961 / 1961). 

Ministro de Estado para o Planejamento e Coordenação Económica (1964/ 1967). 

Membro do Comité Interamericano para a Aliança para o Progresso, representando o Brasil, 
Equador e Haiti (1964/ 1967). 

Presidente do Conselho Interamericano de Comércio e Produção (CICYP) (1968 / 1970). 

Embaixador do Brasil na Corte de Saint James (1975 / 1982). 

Senador da República, representando o Estado de Mato Grosso (1983 / 1990). 

Deputado Federal pelo Estado do Rio de Janeiro, eleito em outubro de 1990 e reeleito em 15 
de novembro de 1994. 

Membro da Junta de Governadores do Centro de Pesquisas de Desenvolvimento Internacional 
(Canadá). 

Membro da Junta de Diretores da Fundação de Recurso para o Futuro (USA). 
Membro do Grupo dos Trinta, sobre reforma monetária (USA). 

Membro do Conselho consultivo do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de 
Stanford (USA). 



Presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento - COMUDES - da Cidade do Rio de 
Janeiro (1999). 

Membro do Conselho de Administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e 
Social -BNDES (1999). 

Roberto Campos 

Bibliografia 

Trabalhos Publicados: 

Artigos técnicos, relatórios sobre desenvolvimento e economia internacional, publicados em 
várias revistas e jornais. 

Livros: 

- Economia, Planejamento e Nacionalismo - APEC Editora S.A. (1963). 

- Ensaios de História Económica e Sociologia - APEC Editora S.A. (1964). 

- A Moeda, o Governo e o Tempo - APEC Editora S.A. (1964). 

- Política Económica e Mitos Políticos - APEC Editora S.A (1965). 

- A Técnica e o Riso - APEC Editora S.A (1967). 

- Reflections on Latin American Development - University of Texas Press (1967). 

- Do Outro Lado da Cerca - APEC Editora S.A (1968). 

- Ensaios Contra a Maré - APEC Editora S.A (1969) 

- Temas e Sistemas - APEC Editora S.A (1970). 

- Função da Empresa Privada - Gráfica Editora Rainha Lescal Ltda. (1971). 

- O Mundo que Vejo e não Desejo - José Olympio Editora (1976). 

- Além do cotidiano - Editora Record (1985). 

- Ensaios Imprudentes - Editora Record (1987). 

- Guia para os Perplexos - Editora Nórdica (1988). 

- O Século Esquisito - Editora Topbooks (1990). 

- Reflexões do Crepúsculo - Editora Topbooks (1991). 

- A Lanterna na Popa (Memórias) - Editora Topbooks (1994). 

- Antologia do Bom Senso - Editora Topbooks (1996). 

- Na virada do Milénio (Ensaios) - Editora Topbooks (1998). 



Co-autor: 



- Trends in International Trade (Relatório do GATT). 

- Partners in Progress (Relatório do Comité Pearson do Banco Mundial). 

- A Nova Economia Brasileira (com M.H. Simonsen) - José Olympio Editora (1974). 

- Formas Criativas no Desenvolvimento Brasileiro (com M.H. Simonsen) - APEC Editora S.A. 
(1975 

Roberto Campos 
Discurso de Posse 

Discurso de recepção do académico Antonio Olinto 
Discurso de posse do académico Roberto Campos 

DISCURSO DE RECEPÇÃO DO ACADÉMICO ANTONIO OLINTO AO ACADÉMICO ROBERTO 
CAMPOS 

A afluência dos que hoje acudiram ao chamado feito pela Casa de Machado de Assis para 
vossa posse, Senhor Roberto Campos, atesta o plano de influência que vossa lucidez suscitou 
nos brasileiros deste século. No momento em que entrais para a Academia Brasileira de Letras, 
faltam poucos meses para o término dos Novecentos. Fim-começo, começo-fim é hora de um 
exame de consciência. É também hora de mudança. Para as transformações por que passou o 
pensamento brasileiro nas últimas décadas muito contribuístes, e é delas que me parece 
mister fale o que vos saúda nesta recepção, Senhor académico Roberto Campos. Chamo-vos 
agora assim para, como romancista e narrador, contar a vossa história. 

Corria a segunda década do século quando nascestes, em pleno centro geográfico da América 
do Sul, na cidade de Cuiabá, de família que residira perto dali, no distrito de Livramento, terra 
dos índios Terena. Da região terena foi também Rondon, brasileiro por excelência. Aos cinco 
anos de vossa idade, perdestes o pai, o professor Waldomiro Campos. Vossa mãe, Honorina de 
Campos, alojou-se na fazenda de parentes em Mato Grosso, perto de Corumbá, onde fizestes 
o curso primário mas, não desejando viver como a parte pobre da família, D. Honorina pegou 
os dois filhos, vós e vossa irmã Catarina - que até hoje chamais de Catitinha - e fez uma longa 
viagem que durava mais de quinze dias, da fazenda no interior matogrossense até São Paulo. 
Eram três dias de carro de boi, cinco de vapor, uma semana de trenzinho Maria Fumaça, até 
Bauru, e, num trem melhor, daí até a cidade de São Paulo, onde D. Honorina estudou numa 
academia de corte e costura e, com essa profissão, emigrou para Guaxupé, no Sul de Minas. 
Veja-se a época. Era 1927, Guaxupé estava no auge da cultura do café. No mesmo ano, saí eu 
de Ubá para Juiz de Fora, onde meu pai, que trabalhava na distribuição de filmes para cinemas 
do interior, procurava uma nova atividade em sua profissão de contador. 

Veio a crise de 1929, que abalou a vida de todo o mundo, principalmente a da classe 
intermediária. Com a crise, o problema era: como estudar? Estudo tinha preço alto. D. 
Honorina fez o mesmo que minha mãe Áurea: colocou-vos no seminário. Seguindo uma 



tradição que vinha do Império, jovens brasileiros da classe média-média costumavam ser 
encaminhados pelos pais a seminários católicos, nem sempre em busca do sacerdócio, mais 
por causa da gratuidade dos estudos. Assim foi que vós, no Sul de Minas Gerais, e este que vos 
recebe, em Campos, Norte do Estado do Rio, nos vimos fazendo o Seminário Menor e tendo 
aulas diárias de Latim, ouvindo missas todas as manhãs e fazendo sermões para os fiéis da 
redondeza, o que pode ter-nos ajudado a criar um espírito de disciplina, difícil de se adquirir 
em colégios comuns. No seminário da Gameleira, em Belo Horizonte, estudamos juntos, vós, 
Teologia, e este que vos fala, Filosofia, num período em que parecíamos prestes a reconquistar 
tempos democráticos, mas, reclusos e com os minutos inteiramente tomados por estudos e 
orações, nem sempre atentávamos para o que ocorria no corpo do Brasil. De lá fostes, sem 
batina, para Batatais, onde conhecestes e namorastes Stella Ferrari Tambellini. Pouco depois, 
chegáveis ao Rio de Janeiro e aqui nos encontramos, como professores, no Colégio Santa 
Cecília e no curso Mattos. Fizestes então o concurso direto para o Itamaraty e lá estive, para 
assistir a vossa posse, num grupo que Oswaldo Aranha, então Ministro das Relações Exteriores, 
chamou de "os 18 do Forte". 

Já com um status diplomático resolvido, viajastes para Batatais, de onde voltastes casado com 
Stella, que vos acompanha desde então. Era em 1939. 

Estávamos sob o domínio do Estado Novo, a guerra viria ampliar o tempo de Getúlio Vargas no 
poder, já que os Aliados precisavam de apoio fora dos campos do conflito, na Europa e na Ásia, 
mas isso não evitou que o fim da guerra derrubasse a ditadura Vargas. Foi o tempo de uma 
nova poesia no Brasil quando João Cabral de Melo Neto compôs seus primeiros poemas e a 
"Geração de 45" aguçava seus instrumentos. Guimarães Rosa escreveria os contos de 
"Sagarana" em 1940, só vindo a publicá-los em 1946. Enquanto isso, estáveis em Washington, 
como Terceiro Secretário, e ali vos formastes em economia para fazer, em seguida, cursos de 
pós-graduação na Universidade de Columbia. Com os estudos humanísticos de colégios 
católicos, especializações em Filosofia e Teologia, acrescentastes a esses conhecimentos um 
novo patamar cultural, erguendo assim um edifício que vos preparava para um trabalho que o 
Brasil exigiria de vós já no começo do segundo pós-guerra do século. Foi então a época das 
grandes reuniões que mudariam o mundo. Estivestes em Bretton Woods. Ali conhecestes 
Eugênio Gudin e Octávio Gouvêa de Bulhões, cujas idéias combinavam, nos pontos principais, 
com as vossas, na luta para encontrar os caminhos que levassem o Brasil a uma posição de 
prover o essencial para a grande maioria de seu povo. Pois então vossa filosofia de vida já se 
havia desenvolvido, na base de uma lucidez de pensamento rara no Brasil. Como definir vossa 
filosofia? Vejo-a como adepta do pensamento crítico. 

Aponta-nos Karl Popper a necessidade - básica para quem pensa - de termos consciência das 
diferenças entre o pensamento crítico e o pensamento dogmático. O pensamento dogmático - 
dono da verdade e do futuro - já causou perseguições, torturas, assassínios. Ao contrário do 
estímulo à violência, o pensamento crítico está mais afeito às duras tarefas de esclarecer, 
mostrar defeitos, melhorar, enfim mudar sem matar. Em casos concretos, mostra Popper "a 
atitude dogmática" de pensadores e líderes de nosso tempo, inclusive as de Marx, Freud e 
Adler, diversas da posição aberta de "experimentos cruciais" de Einstein, de quem cita a frase: 
"Não pode haver melhor destino para uma teoria física do que abrir caminho para uma teoria 
mais simples, na qual sobreviva, como caso-limite". 



Daí o descobrirmos que só o pensamento crítico aprende. O dogmático recusa-se a aprender e 
repele o novo, principalmente se nele vê perigo para sua inamovível postura. Essa recusa vai 
até o momento em que a realidade derruba o dogma, tal como às vezes derruba muros. Ao 
invés de implantar slogans no pensamento das pessoas, o pensamento crítico, porque aprende, 
também ensina, e o ensino propõe, não impõe, mudanças de rumos, idéias e ações. Estará o 
Brasil, no limiar do ano 2000, suficientemente provido desse necessário ingrediente social e 
pessoal que é o pensamento livre? Se eu tivesse de escolher alguém que haja trabalhado, 
incessantemente, com lucidez e alegria, inteligência e imaginação, para convencer e propor a 
seus patrícios - isto é, os que têm a mesma pátria - de que fora da liberdade não há saída - e de 
que o pensamento livre é a base da liberdade - eu optaria pelo vosso nome, académico 
Roberto Campos. Em artigos e discursos, aulas e conferências, livros e declarações muitas, em 
conversas tanto como em ações, tende-vos empenhado em exorcizar os preconceitos de uma 
cultura que tem o hábito de se entusiasmar pelo discurso vazio. Ninguém tentou mudar o 
discurso vazio do país, mais do que vós, numa atividade constante, empreendida sob a égide 
da mudança. Voltando à minha narração, acabada a guerra e terminados os planos destinados 
a por de novo o mundo em bases seguras, inclusive o Plano Marshall, que salvou a Europa, 
passastes a integrar a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos que viria a publicar 17 preciosos 
volumes de análise, avaliação e planejamento da economia brasileira. Esse trabalho levou-nos 
à criação do BNDE, de que fostes sucessivamente superintendente e presidente. O relatório da 
Comissão Mista serviria também de base ao Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, que 
elaborastes juntamente com Lucas Lopes. Não havíeis chegado ainda então aos 40 anos, e 
vosso nome já se tornara o símbolo de uma linha de ação. Tornara-se também um símbolo de 
inteligência autodepreciativa, com uma boa dose de humildade, virtude que deve ter-vos sido 
inculcada nos tempos de seminário e que nenhum mal faz aos que a mantêm e cultivam. 
Vossos artigos e livros, tanto quanto vossa atuação em postos de direção, revelam que a 
inteligência é, em vós, aguçada por uma dose justa de imaginação, misturada a uma visão 
concentrada de problemas objetivos, e sabemos que sem imaginação muitas qualidades de 
análise e previsão deixam de funcionar. 

Finda a era Juscelino Kubitschek, fostes enviado por Jânio Quadros para negociar a dívida 
externa brasileira na Europa e, logo em seguida, assumistes o posto de Embaixador do Brasil 
em Washington, onde havíeis, no começo dos anos 40, iniciado vossa vida diplomática no 
exterior. Com as mudanças de 1964, Castelo Branco assumiu a Presidência da República e vos 
convocou para organizar um ministério novo na administração brasileira, o do Planejamento. 
Nele criastes o Banco Central, o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), o Banco da 
Habitação, a Caderneta de Poupança, elaborastes o Estatuto da Terra e reduzistes, em menos 
de três anos, a inflação brasileira de 100% a 25% ao ano. Governo provocado por um 
movimento de revolta, e não por eleição popular, como haviam sido os cinco anteriores, de 
Gaspar Dutra a João Goulart, teve dificuldades de relacionamento com políticos ligados ao 
espírito democrático anterior, e optou pelo sistema de cassações dos direitos políticos de 
muitos deles. Foi então que vos recusastes a assinar o documento de cassação de Juscelino 
Kubitschek, com quem havíeis trabalhado na elaboração e redação do Plano de Metas e na 
condução do BNDE. Dissestes então a Castelo Branco: "Não posso assinar. Se o Presidente faz 
questão de unanimidade, entrego em suas mãos o meu cargo de Ministro do Planejamento." 
Ao que o Presidente Castelo Branco retrucou: "Vote com a sua consciência, Roberto. E por 



favor continue ministro." Entendo ter sido, aquele, um momento de grandeza nos difíceis dias 
que todos enfrentávamos. 

Foi então que também colaborastes, com vossa autoridade e assinatura, para a concessão, 
pelo Presidente Castelo Branco, do terreno adjunto ao Petit Trianon, ato que permitiu a 
expansão das atividades da Academia Brasileira de Letras. 

O perigo de sociedade fechada nos cercava por todos os lados, fosse o da situação, fosse o da 
oposição, violenta ou moderada, ao governo forte da época. O livro de Karl R. Popper, "A 
sociedade aberta e seus inimigos", teria servido de alerta, já que, tendo escrito uma história do 
historicismo, de Platão a Hegel e Marx, Popper se colocava na posição de que a sociedade 
fechada era essencialmente inimiga da liberdade e partidária de um controle, quase sempre 
absoluto, do governo sobre a sociedade inteira. 

Quase sozinho, lutastes pela sociedade aberta e ficastes por isso marcado, como se crime 
fosse desejar a liberdade, primeiro item do tríptico da Revolução Francesa, básico para que se 
chegue ao segundo, igualdade, e ao terceiro, fraternidade. Depois de sete anos, sete meses e 
sete dias como embaixador do Brasil em Londres (não creio haja a menor explicação racional 
para esse número) ingressastes em nova fase de vossa vida: a de congressista. Passastes 16 
anos no Parlamento, os primeiros oito como Senador por Mato Grosso e as duas legislaturas 
seguintes como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Em vosso discurso de estréia no Senado 
Federal fizestes uma análise precisa da situação brasileira, com toques de humor e de ironia. 
Era o ano de 1983, no último período do regime iniciado em 1964, e vossas palavras 
começaram com a citação de excertos de antigos discursos, os de Cunha Matos e Evaristo da 
Veiga, em acalorado debate sobre a "Moratória", na Câmara dos Deputados da Regência Trina 
Permanente, no Rio de Janeiro, em 30 de junho de 1831, precisamente 152 anos antes do 
discurso que pronunciáveis naquele instante. A frase antiga dizia: "A nossa situação atual é 
crítica. Não digo que não possamos sair da má posição em que estamos; podemos, tendo 
economia e juízo; mas é um fato que isto não pode acontecer senão com o tempo." As 
mesmas palavras podiam ser repetidas em 1983, ou agora. Usastes também as palavras do 
filósofo francês: "Nada suponho; nada proponho; exponho". Expusestes as vossas idéias sobre 
a situação brasileira e, relendo-as agora, reconheço que são ainda atuais neste fim de milénio. 

Esse vasto panorama de vossa vida se completaria com a mais inesperada tarefa em que vos 
empenhastes. Trata-se de uma parte de vossa atividade que foi tranquilamente patrulhada, 
não se devia falar muito no assunto, como se não tivesse acontecido. Saíram, é verdade, 
algumas notícias na mídia, mas poucas e incompletas. Na luta contra o jugo do dogmatismo, 
Deng se utilizou de chineses ligados ao mundo ocidental a fim de com eles construir uma 
ponte que ajudasse o país a vencer as crises dos anos 60 e parte dos 70. Assim foi que o 
empresário e executivo chinês, diretor da China Investment and Trade International 
Corporation, Sr. Rong Yren, vos convidou para várias visitas à China, a fim de analisar e debater 
medidas que se integrassem nos planos de Deng Xiaoping. Era uma política de "portas abertas", 
que possibilitasse o "salto adiante" e tinha por base um "Programa das Quatro 
Modernizações" (da agricultura, indústria, tecnologia e defesa). O slogan proposto pelo grupo 
de Deng Xiaoping era "a cada um de acordo com o seu trabalho" e visava chegasse o país a 
uma "prosperidade comum". Com o tempo, a filosofia de Xiaoping pregou a adoção de uma 



"abertura internacional", inclusive através da contribuição de economistas e técnicos de várias 
partes do mundo. Nas vossas viagens à China conhecestes o socialismo à moda chinesa que 
vós classificastes de "o mais excitante experimento de engenharia social de nosso tempo". 
Assim explicastes, em vosso livro "Ensaios imprudentes", o revisionismo de Deng: "consiste na 
substituição do dogmatismo marxista por um pragmatismo seletivo, que admite inclusive o 
uso de certos "instrumentos" capitalistas no interesse da modernização chinesa." 

A par desse esforço levantou-se na China uma luta em prol da educação, problema que 
também nos aflige. Ocorreu há não muito, na pequena cidade alemã deTombach, perto da 
fronteira com a França, no Estado de Bade-Wúrtemberg, uma reunião quase secreta, de 
executivos e intelectuais europeus, para discutir a violência do desafio científico, assunto que 
também vos tem preocupado, Senhor Roberto Campos, em artigos e conferências. Essa 
reunião deu o mote: "As máquinas são decisivas, mas não tanto. Importantes são homens e 
mulheres educados ao mais alto nível". Um país com tendência para o surrealismo, precisa de 
lutadores como vós, em todas as frentes, precisa da tranquilidade com que aceitais a missão 
de sugerir a adoção do pensamento crítico a uma sociedade que sofre a tentação do 
pensamento errático. 

Há que destacar a característica talvez maior de vosso talento: a visão geral das coisas. Há 
décadas vínheis dizendo o que poderia acontecer aqui e ali, caso uma situação dada 
continuasse a se desenvolver numa linha determinada. Agistes como profeta em prever o que 
aconteceria, ainda antes do fim do milénio, em diversas partes do mundo. Tem-se a impressão 
de que dispondes de uma visão da realidade e dos possíveis caminhos que sairiam de um 
tempo daqui e de agora. Sois avesso ao wishful thinking, expressão que se poderia traduzir por 
"pensamento desejoso", isto é, de se acreditar que acontecerá exatamente aquilo que está no 
desejo de quem pensa. Daí, a clareza de vossos escritos, que vem da "claritas" de Santo Tomás 
de Aquino, que foi o vosso chão inicial. Por causa desse chão, o aprendizado de economia, 
posterior e seus tempos de seminário católico, pousou em terreno lavrado pelo exercício da 
Lógica e pelo vezo do pensamento aberto. No seminário começastes a escrever, na certeza de 
que seríeis principalmente escritor, como o sois agora. Lembro-me de, em 1935, me haverdes 
dado a ler poema vosso, creio que chamado "O amor materno", quando opinei: "É o seu 
melhor" (eu vos tratava na terceira pessoa e não com o "vós" desta saudação). Respondestes: 
"O melhor e o último". Explicastes: "Em poesia, ou génio ou nada. E eu já descobri que em 
poesia eu não sou génio". Sabemos hoje que sois um mestre da prosa. Tendo percorrido todos 
os estilos de ensaio e chegado a um primoroso relato autobiográfico, conquistastes um estilo 
próprio, de severo dominador da palavra. Em "Guia para os perplexos", revelastes vossa 
admiração por Maimônedes, o filósofo e médico judeu que morou no Cairo no Século XII da 
era cristã. Resolvestes apresentá-lo como o racional por excelência ao tentar imprimir 
racionalidade à teologia e à ética judaicas. Queria libertar o pensamento judaico do 
irracionalismo da Cabala. Comentastes: "Maimônedes desconfiava do entusiasmo e pregava a 
moderação. Acreditava que o progresso viria através de um lento e despretencioso avanço da 
razão". 

Versado em Santo Tomás de Aquino, vistes no filósofo judeu um companheiro do santo 
católico, no seu apego à razão. Dizia Maimônedes que a construção da boa sociedade 
pressupõe não fórmulas messiânicas, mas simplesmente o império da lei. Transcrevestes: "A 



lei como um todo objetiva duas coisas - o bem-estar da alma e o bem-estar do corpo. O 
primeiro consiste no desenvolvimento do intelecto humano; o segundo, no melhoramento das 
relações políticas dos homens entre si". Admirais todos os autores que aceitam o primado 
irreversível da razão. Entre eles o que mais alto sobe na vossa admiração é Friedrich von Hayek, 
"o homem de idéias que mais bravamente lutou, ao longo de duas gerações atormentadas, 
pela liberdade do indivíduo contra todas modas totalitárias, do soviético ao nazismo." Repito 
que, em vossos livros, vindes mostrando um estilo que vos coloca na primeira linha da 
ensaística brasileira. Todos eles - "Antologia do bom senso", "Guia para os perplexos", "Ensaios 
de história Económica e Sociologia", "O Século esquisito", "Ensaios imprudentes", "Reflexões 
do crepúsculo", "A técnica e o riso", "Do outro lado da Cerca", "Ensaios contra a maré", "O 
mundo que vejo e não desejo", "Na virada do milénio" e last but not least "Lanterna na popa" - 
impuseram um estilo novo às análises sociais e económicas escritas no Brasil, ao mesmo 
tempo em que revelavam uma excelência literária que, no caso de vossa autobiografia 
"Lanterna na popa", ganhou o Prémio Ermírio de Morais, concedido por esta Academia que 
ora vos recebe. 

Ao longo de todos esses livros há uma pregação, numa série de análises claras e lúcidas sobre 
o nosso tempo, sua gente e suas opções. De que maneira classificar vosso estilo? Talvez num 
misto de Samuel Pepys e Montaigne. De Pepys tendes o gosto pela precisão da palavra e pela 
curteza das afirmações, contidas numa técnica literária cujas descrições, mesmo as 
aparentemente não-opinativas, na verdade insuflam e propõem opiniões. Opinativo sois, pois, 
com a liberdade de vosso pensamento, poucos são os que revelam no Brasil tanta coragem de 
pensar a realidade e dizer, bem e com propriedade, o que pensam. 

De Montaigne tendes o espírito humanístico e a sabedoria de concentrar, num ensaio curto, 
um universo completo de pensamento. A isso, acrescentais uma ironia que assume diversas 
capas, a ironia direta, a leve, a que se exprime por jeux de mots, a que se vale de largas 
referências a uma cultura ecuménica. 

Vosso lado polémico se assemelha ao de Chesterton, que parece ter, com a realidade, um 
pacto, com palavras que se juntam para realçar paradoxos e convencer através de duplos 
sentidos. 

O uso que fazeis da palavra é de estrema sabedoria. Há uma perfeita adequação entre o 
pensamento que defendeis e o modo como o colocais em vocábulos. Exatamente porque o 
mais difícil dos estilos é o estilo argumentativo, o que usa elementos da Lógica para dar 
transparência a um argumento, foi que o aprendizado humanístico do seminário se 
transformou, em vossa linguagem de escritor, numa arma tão poderosa. Junto com a clareza 
tomista , vós vos adestrastes na direiteza e simplicidade de Descartes. Durante muitos anos, 
estivestes presente a debates, acordos, contratos, pactos, na tese de que nenhuma sociedade 
pode sobreviver sem um contrato, e nem foi por outro motivo que Rousseau acabou por se 
tornar o homem-chave de todo um movimento que é hoje tá forte como no conturbado final 
do "Ancien Regime". Nesses contatos e contratos, fostes muitas vezes de extrema severidade, 
devido à segunda das duas palavras que vos definem: a lucidez e a coerência. A elas eu juntaria 
outra: a equanimidade. Se tendes o hábito de escolher a Lógica por base, sabeis também que a 
realidade pode mostrar outra - e oculta - lógica, surgiu Pascal para realçar a importância de 



"esprit de finesse" em contraposição ao "esprit de géometrie", ou talvez não em oposição mas 
em companhia de. Porque revelastes "finesse" em vossos escritos, ao mesmo tempo em que 
dizeis, neles e nos debates verbais, exatamente o que julgais certo, sem fantasias nem 
sombras. Vós mesmo vos definis como um "pregador de idéias", imbuído talvez demais da 
"índole da controvérsia" e sem grande "capacidade de acomodação". Sendo, porém, a 
controvérsia um elemento eminentemente democratizante, isto vos coloca num spectrum 
político de invejável tolerância. 

A vossa obra-prima, "Lanterna na popa", jogou no pensamento brasileiro todos os conflitos e 
perplexidades da nossa história neste século. São páginas de memórias, são análises de gentes 
e acontecimentos, de atos e omissões, de tempo perdido e às vezes reconquistado. É livro que 
recupera um período agitado da vida brasileira (quais os que não o foram?), mas que, por sua 
proximidade e por havermos muitos de nós passado por ele, com maior ou menor consciência 
do que estivesse acontecendo, sentimo-lo como se fosse a nossa própria história. 

Falando/escrevendo por vós, falais/escreveis também por nós, e este é o fascínio de vossa 
narração. De rara beleza são as páginas sobre vossa infância em Mato Grosso, com as 
descrições da Nhecolândia, suas figuras desenhadas contra o fundo estranho e belo do 
Pantanal. Dizeis: "Na minha ótica de primeira infância, o Pantanal me parecia mais perigoso do 
que belo". Havia as cobras (a jararaca, a cascavel e a sucuri), as onças (parda e pintada), as 
piranhas. O pacu era o peixe democrático, fácil de pescar, as bebidas eram o guaraná ralado e 
o chimarrão. Afirmais que só viestes a perceber a beleza do Pantanal trinta anos mais tarde - a 
bela alternância das salinas, lagoas salobras, com praias branca, as lagoas doces, com 
vegetação nas margens, e a belíssima revoada das garças, dos tuiuiús e baguaris. Vosso primo 
e companheiro de quarto no começo de vossa vivência carioca, Manoel de Barros - "o único 
poeta da família", dizeis - que vivia em fazenda próxima daquela em que estáveis, assim 
verseja sobre o vosso ambiente infantil: "me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do 
chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios..." Ao longo das 1.417 páginas de vossas 
memórias, louve-se a vossa narrativa, que é primorosamente executada. Os personagens - 
Oswaldo Aranha, Octácio Gouvêa de Bulhões, Eugênio Gudin, Castelo Branco, Margareth 
Thatcher, John Kennedy, Lord Keynes, Friedrich von Hayet, brasileiros, ingleses, americanos, 
árabes, indianos, chineses, gente de um sem-número de países, a todos mostrais com a nitidez 
do bom narrador. Podeis estar certo, académico Roberto Campos, que "Lanterna na popa" 
ficará na literatura brasileira - chamemo-lo de literatura porque literatura é - como um de seus 
livros decisivos, cuja leitura se tornará obrigatória para o entendimento deste país e deste 
tempo. 

Em vossas múltiplas atividades, demonstrastes ser esta coisa difícil em qualquer época ou 
lugar: um estadista. Falando, escrevendo, agindo, pensando, dialogando com os mais diversos 
setores da inteligência de nosso tempo, tendes sido de inteira coerência, de fidelidade à vossas 
idéias, na linha do lema de Shakespeare: "Be faithful to thyself". O ser fiel a si mesmo pode, 
naturalmente, incomodar uma quantidade ponderável de pessoas e de grupos. Daí talvez a 
explicação das turbulências que vos têm cercado nos últimos sessenta anos, a partir do 
momento em que, havendo ingressado no Itamaraty, passastes a ter uma presença inarredável 
nos assuntos deste século. 



Senhor académico Roberto Campos, a Academia Brasileira de Letras vos recebe de braços 
abertos. Há algum tempo já que ela vos esperava. Sabia a Casa de Machado de Assis que vossa 
participação em nossas atividades daria realce à luta que empreendemos em favor da cultura 
brasileira e em defesa do idioma português, que nos une e nos distingue. 

Aqui chegais agora, e é como se um destino, previsto e esperado, se cumprisse. Neste 
momento de alegria para vós e para nós, presto minha homenagem a Stella de Oliveira 
Campos (née Ferrari Tambellini), com quem estais casado há sessenta anos, aos filhos do casal 
- Sandra, Roberto Campos Jr e Luís Fernando - e a D. Catarina, vossa irmã . 

Acima de tudo, Senhor académico, endereço minha homenagem à memória de Honorina de 
Campos que, viúva pobre, educou seus dois filhos, a partir dos cinco anos do menino e dos três 
da menina, aprendendo e em seguida exercendo a profissão de costureira, para educar 
Roberto e Catarina. Honorina de Campos morreu aos 97 anos de sua idade. Quando estava 
com 92, conversando com o filho disse: "Estou com muito medo". Roberto quis saber de quê. 
Resposta: "Tenho medo de não morrer jamais". Pois na verdade ela não morreu. Criou e 
educou seu filho para servir ao Brasil, com a inteligência que, sem ela, poderia não se ter 
desenvolvido. 

Muito obrigado, D. Honorina. Muito obrigado a todos. 



DISCURSO DO ACADÉMICO ROBERTO CAMPOS NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS EM 
26.10.99 

Tristes são as pessoas e as coisas consideradas sem ênfase. Assim versejou o grande Carlos 
Drummond de Andrade. A julgar pelo tumulto ideológico que suscitou minha campanha para 
este calmo sodalício, não sou uma pessoa considerado sem ênfase. Chego à Academia em 
idade crepuscular, o que tem a vantagem de permitir-me saborear melhor um dos poucos 
prazeres - a cultura - que sobrevivem à desconstrução da juventude. 

Refocilando a memória, verifico que a primeira pessoa que fez perpassar um sopro de ambição 
académica em minha mente, até então entupida pelas miudezas do pragmatismo económico, 
foi Rachel de Queiroz. 

Lá se vai mais de um decénio. Visitei-a. Falávamos generalidades sobre o Brasil e sobre a 
trágica morte de um comum amigo, o presidente Castello Branco, cuja ascensão ao poder foi 
um acidente benigno de liderança, e cujo desaparecimento um acidente maligno da história. 
Se vivo, talvez influenciasse para encurtar o período de excepcionalidade militar, que ele, 
receoso da corrupção do poder, queria breve, suficiente apenas para evitar um autoritarismo 
de esquerda. 

Subitamente, numa guinada reflexiva, Rachel me perguntou: 

- Você já pensou em candidatar-se à Academia de Letras? 

- Não, respondi-lhe. Não acredito que tenha obra suficiente e careço de outros requisitos. 



- Da obra - disse-me ela - não cabe a você julgar, e sim aos académicos. Os requisitos são dois. 
Providenciar um cadáver e não ser uma personalidade muito controvertida. 

Não passo neste vestibular, respondi-lhe. Providenciar um cadáver depende do Criador, e não 
desejo que ele se apresse. Não ser personalidade controvertida depende dos outros. 

- Lembre-se, acrescentei, do que dizia nosso amigo, o presidente Castello: "Não é verdade que 
eu seja teimoso; teimoso é quem teima comigo". O mesmo digo eu: "Não sou controvertido. 
Controvertido é quem controverte comigo". 

Anos depois, em 1991, o Criador fez sua tarefa em momento errado e em relação à pessoa 
errada. As Parcas roubaram de nosso convívio, aos 49 anos, José Guilherme Merquior, um 
génio do "liberismo" - expressão que ele preferia ao liberalismo, para demonstrar que não era 
liberal apenas na política, mas também na economia. Convivi muito com dois grandes 
liberistas de minha geração - Merquior e Mário Henrique Simonsen. Com o desaparecimento 
de ambos, em plena produtividade, também morri um pouco. 

Merquior, ocupante da cadeira 12 desta Academia, tinha sido meu conselheiro diplomático, 
quando exerci a função de embaixador em Londres, posto que deixei em 1982, para 
candidatar-me ao Senado Federal por Mato Grosso. 

Tive o bom senso de dispensá-lo da rotina da embaixada, encorajando-o a fazer seu doutorado 
em Sociologia e Política na London School of Economics. 

- Sua tese doutoral contribuirá mais para a cultura brasileira, disse-lhe eu, que os relatórios 
diplomáticos que dormirão o sono dos justos nos arquivos do Itamaraty. 

Previ corretamente. A tese de Merquior - "Rousseau and Weber - Two Studies in the Theory of 
Legitimacy" - escrita em inglês erudito, que humilhava os nativos monoglotas, se tornou parte 
da bibliografia básica em várias universidades européias. 

Encorajado por sua viúva Hilda e por académicos amigos, e rompendo inibições que me 
tornam antipático para disfarçar timidez, candidatei-me a esta Academia na vaga de Merquior. 
Ninguém foi eleito na primeira rodada em abril de 1991 e eu desisti da luta, reconhecendo a 
preferência da Casa pelo meu amigo João de Scantinburgo, filósofo e historiador, cuja "História 
do Liberalismo no Brasil" se tornou referência para os estudiosos das idéias liberais. Um ano 
depois, cometi a imprudência de candidatar-me à Cadeira 13, quando deveria estar me 
aplicando mais às campanhas políticas. Tinha sido encorajado por esse benevolente promotor 
de ambições académicas, que é Jorge Amado, de quem me fiz amigo em Londres, quando, 
indiferente à bagatela de Picadilly Circus, escrevia, hospedado na casa de Antonio Olinto, o 
romance "Tieta do Agreste". Mas tanto Jorge, por benevolência, como eu, por imodéstia, 
sobreestimávamos meus méritos. Foi a Academia que ganhou com a recepção de um novo 
talento, Sérgio Rouanet, filósofo iluminista, opção, aliás, racional num país que de tantas luzes 
carece. Minha mulher Stella, que com sereno realismo se opusera às minhas ambições 
académicas, passou-me um pito, usando uma expressão "academiabilidade", que ouvira de 
Gilberto Amado: "Entre os seus vários dotes, meu caro, não se inclui o da "academiabilidade", 
sussurrou-me ela. 



Relato essas peripécias para demonstrar que nas porfias académicas não fui um "cão de 
açougue". Manuel Bandeira, conta-nos Ledo Ivo, assim chamava os "candidatos ao vosso 
convívio, antecipadamente vitoriosos". Esses não deixam para os rivais nem ossos nem 
esperanças... 

Transcorreu depois um longo intervalo em que me dediquei a ganhar eleições para a Câmara 
Federal. Tarefa mais fácil, sem dúvida, pois como dizia Napoleão Bonaparte, "em política, a 
estupidez não é um handicap". Até porque, segundo Krushev, os políticos podem prometer 
pontes onde não há rios. 

Sobre a dura porfia de ingressar neste cenáculo, não há autoridade maior que Juscelino 
Kubitschek. Tendo vencido por centenas de milhares de votos eleições para governador de 
Minas e para presidente da República, perdeu por um sufrágio sua eleição para a Cadeira n 9 1 
deste sodalício. 

Passaram-se os anos mas não passou de todo a tentação. Ela foi ressuscitada por três amigos 
que eu chamarei de "os três mosqueteiros" - Antonio Olinto, Tarcísio Padilha e Murilo Melo 
Filho - sob a neutralidade simpática do presidente Arnaldo Niskier. Esmeraram-se eles em 
demonstrar-me que os tempos tinham mudado. Muitas das minhas teses heréticas ficaram 
consensuais e meu grau de "academiabilidade" melhorara a ponto de não inspirar cuidados. 

Havia, entretanto, um veto doméstico. Faríamos, Stella e eu, este ano, 60 anos de casados, o 
que, nesta era de rotatividade matrimonial, é um feito portentoso, que rouba, entretanto, ao 
marido a qualidade de macho dominador. Stella tinha sua autoridade reforçada por 
desmentirmos brilhantemente o sarcasmo de Nelson Rodrigues, que numa rodada de uísque 
vespertino comigo e meu cunhado, o saudoso cineasta Flávio Tambellini, respondeu indignado 
a um cliente em mesa vizinha que lhe entregou um convite para uma festa de Bodas de Ouro: 
"Viver com a mesma mulher durante meio século é cinismo ou falta de imaginação". 

Vendo-me prestes a sucumbir à tentação de buscar a imortalidade académica, Stella 
protestou: 

- Só pode ser ambição senil. E desnecessária, pois você vive dizendo que a generosa 
Constituição de 1988, em seu Artigo 230, tornou imortais todos os idosos brasileiros, 
garantindo-lhes "o direito à vida". 

Respondi-lhe ter a imortalidade literária um sabor especial, por ser um julgamento histórico, 
superior às vulgaridades constitucionais que frequentemente não "pegam". Não haveria, aliás, 
perigo de vaidade senil, pois nunca me esquecera da resposta de Olavo Bilac, um dos 
fundadores da Academia, a quem lhe perguntou se não era insólita arrogância dos académicos 
inscreverem em seu brasão "AD IMMORTALITATEM": 

- Não - disse Bilac - os académicos são imortais porque não têm onde cair mortos ... 

Existiram, certamente, cenáculos de apelação menos pretensiosa, como fez notar Afrânio 
Peixoto em sua introdução aos volumes que compendiam vossos discursos académicos. 
Relata-nos ele que em Portugal surgiu, em 1647, a Academia dos "Generosos", seguida pela 
dos "Singulares" em 1663. "Confiados" se chamavam os académicos de Pavia; "Declarados", os 



de Sena; "Elevados", os de Ferrara; "Inflamados" os de Pádua; "Unidos", os de Veneza. Em 
1724, criou-se na Bahia a "Academia Brasílica dos Esquecidos", ressuscitada depois sob o nome 
de "Academia Brasílica dos Renascidos". No Rio de Janeiro, em 1736, se instalaria a "Academia 
dos Felizes"; e em 1751, a dos "Seletos". A mais bizarra de todas foi a dos "Rebeldes", uma 
aventura juvenil de Jorge Amado, criada em Salvador, para rebater o formalismo e suposto 
elitismo da Academia Brasileira de Letras. Teve precária existência, de 1928 a 1930, reunindo- 
se numa sala de sessões espíritas, sob os eflúvios de Alan Kardec. Jorge Amado depois criou 
juízo, sendo eleito "imortal" nesta Academia, em 1961, da qual é membro querido e 
respeitado. Durante certo tempo, foi chique entre os intelectuais de esquerda desdenharem o 
venerando grémio de Machado de Assis, mas vários sucumbiram ao seu encantamento, como 
Antonio Callado, Antonio Houaiss, Darcy Ribeiro e Dias Gomes. 

Minha paz familiar foi restaurada graças a um telefonema de Rachel de Queiroz, que estava 
então pastoreando rebanhos em sua fazenda no Ceará. Com sua infinita e doce persuasão, 
induziu-nos todos a crer que minha candidatura a esta Academia deixara de ser uma idéia fora 
do lugar. 

Para minha surpresa, que me rejuvenesceu, pois ser jovem é apenas a capacidade de ter 
surpresa, deflagrou-se, anunciada minha pretensão à vaga de Dias Gomes, uma ridícula 
batalha ideológica, que, magnificada pela mídia, me transformaria numa ameaça à paz e a 
elegância deste cenáculo. 

Velho e cansado de brigas, visitei então o presidente Niskier e os membros da Diretoria, para 
ofertar-lhes minha renúncia à candidatura. Encontrei pronta reação dos ilustres confrades: 

- A Academia Brasileira de Letras - disseram-me - nasceu ecuménica e assim continuará. Não 
aceitamos vetos de nenhuma ideologia e não há reserva de mercado para nenhuma seita 
política. A Academia é um templo de comunhão cultural e não uma arena de gladiadores 
políticos. 

E lembraram-me que, em seu nascimento, esta Casa fundiu numa comunhão de interesses 
culturais, dois grupos políticos radicalmente opostos - os republicanos e os monarquistas - sem 
que houvesse jamais desrespeito ao congraçamento cultural. Republicanos eram Rui Barbosa, 
Lucio Mendonça, Medeiros de Albuquerque e Graça Aranha. Monarquistas eram Joaquim 
Nabuco, Eduardo Prado, Carlos de Laet e Afonso Celso. Conviveram depois em plena 
tranquilidade "florianistas", como Artur de Azevedo e Coelho Neto, e "anti florianistas", como 
Rui Barbosa , Olavo Bilac e José do Patrocínio. 

- Aliás - acrescentou o presidente Niskier - essa tradição de abertura ecuménica é tão forte que 
se criou a liturgia de incineração de votos, convencionando-se que o candidato vitorioso foi 
eleito por unanimidade. Verifiquei depois, lendo a interessante auto-biografia de Dias Gomes, 
que ele também sofrera impugnações ideológicas, quando sucedeu a Adonias Filho, por estar 
no lado oposto do espectro político. Multiplicaram-se cartas à Academia, protestando contra a 
sua eleição. 

No meu caso, a querela foi muito mais estridente. Aliás, como alvo de personalismos injuriosos, 
ganhei todos os campeonatos desta pátria amada, sofrendo patrulhamentos e recebendo 



xingamentos tanto da esquerda radical como dos nacionalistas de direita. O mais inteligente 
dos críticos à minha política económica, quando Ministro do Planejamento, foi, sem dúvida, 
Carlos Lacerda. Esse esmagador polemista disse uma vez, provocando "suspense" na 
audiência: "Tenho a maior admiração pelo Dr. Campos... pela sua absoluta imparcialidade: 
mata imparcialmente os ricos, de raiva, e os pobres, de fome". Não pude excogitar de imediato 
outra resposta, senão dizer que a "fúria da seta dignificava o alvo". 

Mas o argumento fundamental que me fez desistir da desistência foi o da rotatividade da 
cadeira 21. Tanto Álvaro Moreyra como Adonias Filho e Dias Gomes, em seus discursos de 
posse, rotularam-na de "cadeira de liberdade". Poder-se-ia chamá-la também de "cadeira do 
ecletismo". Seu membro fundador foi José do Patrocínio, um liberal abolicionista. Escolheu 
para patrono Joaquim Serra, também um abolicionista que cultivava a filosofia platónica e se 
declarava positivista. O segundo ocupante foi Mário de Alencar, tão recluso em seus pendores, 
que se poderia chamar de neutralista. O terceiro foi Olegário Mariano, um conservador 
getulista. O quarto foi Álvaro Moreyra, o primeiro a se declarar comunista. O quinto foi 
Adonias Filho, um ex-integralista, partidário da Revolução de 1964. Sucedeu-lhe Dias Gomes, 
que se inscrevera no Partido Comunista no final da II Guerra. 

Mantido o precedente da alternância, seria a hora e vez de um conservador ou de um liberal. 
Diferem os dois em que o conservador quer preservar o "status quo", enquanto o liberal aceita 
mudanças, desde que emanadas do mercado competitivo ou provindas do voto democrático. 
Defino-me como um "liberista" que vê no governo um mal necessário. Às vezes, 
absolutamente necessário. 

Descobri algumas afinidades com Dias Gomes. Ambos tivemos educação religiosa, ele num 
colégio marista, enquanto eu completei dez anos em seminário católico, graduando-me em 
Filosofia e Teologia. Foram anos de retiro e castidade, durante os quais acumulei um enorme 
direito de pecar, que nunca pude usar, por falta de cooperação complacente. 

Dizia-se, na minha adolescência, que um cavalheiro completo tinha que ter um diploma de 
bacharel, vestígios de uma doença do sexo e escrever um poema. Enclausurado num mosteiro, 
desqualifiquei-me nos dois primeiros requisitos, mas cometi alguns poemetos sob a forma de 
"haikais" que, para bem da Humanidade, consignei à lata de lixo. Só me lembro de um "haikai", 
de duvidoso gosto, mas não de todo inimaginoso: 

- "Lança os teus olhos ao mar pela hora redonda. 

E aprende na folha que cai a geometria da queda". 

Dias Gomes também cometeu romances juvenis, sobre os quais talvez consentisse em dizer: 
"esqueçam o que escrevi". 

Cometemos, assim, ambos, erros de vocação. Ele estagiou por dois meses numa escola de 
cadetes, fez curso preparatório para Engenharia e cursou até o 3 9 ano de Direito, quando, 
finalmente, descobriu que sua verdadeira vocação era a arte teatral. Desdobrar-se-ia depois no 
rádio e na televisão, com igual brilhantismo e incrível produtividade. 



Eu, de teólogo, tratando como diz Anatole France "avec une minutieuse exactitude 
del'lnconnaissable", passei à Economia, que dizem ser a "ciência de alcançar a miséria com o 
auxílio da estatística". 

Dias Gomes e eu tivemos a mesma votação nesta Academia, indicando que os académicos são 
tão maus profetas quanto os economistas, pois nossos respectivos aliados nos prediziam 
vitórias consagradoras. Isso me faz lembrar uma estória contada por um querido amigo, o 
pediatra Rinaldo de Lamare, sobre a Academia Nacional de Medicina, veneranda instituição 
que já completou 172 anos. Revoltado por sucessivos repúdios à sua pretensão de figurar 
entre os 100 académicos, assim se pronunciou um esculápio frustrado: - A Academia é um 
grupo de médicos de indiscutível valor profissional, de justificada vaidade profissional e de 
incompreensível falsidade eleitoral. 

Nossas percepções do mundo, sempre antagónicas, se adoçaram nas refregas do mundo real. 
Dias Gomes, que se considerava um subversivo vocacional, aderiu ao Comunismo em 1945, e, 
sem ser um ativista ou fanático, nele permaneceu até 1971, desviando-se da linha do partido 
ao protestar em 1966 contra o mau tratamento dado aos escritores soviéticos. Custou a 
aceitar a morte da "ilusão", reconhecendo afinal a incompatibilidade básica entre sua vigorosa 
luta pela preservação da dignidade do ser humano e contra qualquer forma de intolerância, 
com as brutalidades do socialismo real e seu arsenal de expurgos, "gulags" e submissão das 
artes aos dogmas do PCUS. O comunismo se tornou mundialmente uma espécie de religião 
leiga, tendo o Kremlim, como o Vaticano, o "Das Kapital" por bíblia e a ditadura do 
proletariado como a "parousia". 

Em novembro de 1996, em entrevista dada a Ana Madureira de Pinho, na "Revista de 
Domingo", do Jornal do Brasil, Dias Gomes declarou: 

- Não sou comunista, porque o comunismo é uma utopia, nunca existiu em nenhum país do 
mundo comunista. Me considero um homem de esquerda, anti dogmático. Uma vez me defini 
para amigos: um "anarco-marxista-ecumênico-sensual" (esse jogo de palavras me faz lembrar 
a definição por Eliézer Batista, do sistema político de invasão de poderes criado pela 
Constituição de 1988: uma "surubocracia anarco-sindical"). 

E continuou: 

- Sou um homem aberto hoje em dia. Muitas idéias foram reformuladas, mas continuo um 
homem de esquerda. Isso se você considera ser de esquerda somente sonhar com uma 
sociedade mais justa e mais liberta. Se o comunismo nunca existiu, tem razão o historiador 
francês ex-comunista François Furet, ao escrever seu monumental tratado do arrependimento: 
"Le passé d'une ilusion". Essa ilusão custou ao mundo quase 100 milhões de vítimas. Das 
grandes ideologias mundiais não cristãs, o marxismo leninismo foi a mais sangrenta e mais 
curta - 72 anos. O islamismo está ainda em expansão e durou 14 séculos. O budismo e 
confucionismo sobrevivem há cerca de 24 ou 25 séculos. 

Mas Dias Gomes exagera no seu réquiem do comunismo. No museu de obsoletismos políticos, 
sobrevivem dois espécimes: Cuba e Coréia do Norte. E curiosamente algumas universidades 
públicas brasileiras tornaram-se o último refúgio do profetismo e da vulgata marxista. 



Dias Gomes, que se auto descreve como um "proibido precoce", teve peças censuradas ou 
proibidas pelos dois governos Vargas, por vários governos militares e até mesmo por Carlos 
Lacerda, como Governador da Guanabara. Confessa, entretanto, uma frustração: 

- Não ter sido preso é uma falha na minha biografia que me envergonha, uma injusta lacuna. 
Por tudo que fiz, sem modéstia, eu acho que merecia uma honrosa cadeia (o Dia, 30/4/98). 

Eu não tive necessidade de retratação porque nunca cedi a radicalismos nem de direita, nem 
de esquerda. Minha punição foi não passar de uma carreira pública medíocre, por insistir em 
dizer a verdade antes do tempo, pecado que a política não perdoa. Quando jovem, no início da 
II Guerra, parecia inevitável a vitória do Eixo sobre as "democracias decadentes". Mas eu 
respondia aos que assim profetizavam: 

- Hitler é apenas um Napoleão que nasceu falando alemão, com a desvantagem de não ter 
feito nada comparável ao Código Napoleónico. 

Também não me iludi com o totalitarismo de esquerda, por um raciocínio simples. Deus não é 
socialista. Criou os homens profundamente desiguais. Tudo que se pode fazer é administrar 
humanamente essa desigualdade, buscando igualar as oportunidades, sem impor resultados. 
De outra maneira, estaríamos brincando de Deus, ao tentarmos refabricar o homem. É o que 
tentaram fazer Marx e Lenin, com os resultados conhecidos: despotismo e empobrecimento. 
Isso me levou, ainda jovem, a acreditar que o sistema político ideal seria o capitalismo 
democrático, isto é, o casamento da democracia política com a economia de mercado. 
Parodiando Churchill, pode-se dizer que o capitalismo é o pior dos sistemas económicos, 
exceto todos os outros; e a democracia é o pior sistema político, excetuado todos os outros. 

Mas se não tive de recitar o "confiteor" por ter optado pelo sistema errado, fui obrigado a 
fazer retificações de rumo. Em minha juventude, acreditava no Estado planejador e motor do 
desenvolvimento. Curiosamente, meu desapontamento começou quando, como Ministro do 
Planejamento, visitei a União Soviética em 1965. Assustei-me com a presunção dos burocratas 
do Gosplan. Ignorando o consumidor, eles planejavam, com ridícula minúcia, a quantidade e a 
qualidade dos bens de consumo. Acabavam produzindo o que o consumidor não queria 
consumir. E verifiquei que o planejamento central já era ridicularizado na sabedoria das 
anedotas polulares. Chiste corrente em Moscou, originário da rádio Yerevan, da capital da 
Armênia, dizia que uma professora pedira a um de seus alunos para conjugar o verbo 
"planejar". Mal começou o aluno a balbuciar "eu planejo, tu planejas, ele planeja a 
professora perguntou-lhe: "Que tempo do verbo é esse?" - Tempo perdido", respondeu o 
aluno. 

Embrenhei-me depois na leitura dos liberais austríacos, como Von Mises e Hayek, 
convencendo-me de que planos de governo são "sonhos com data marcada". Antes, queria 
que o governo fosse um engenheiro social, modelando o desenvolvimento. Hoje rezo para que 
ele seja apenas um jardineiro, adubando o solo, extraindo ervas daninhas e deixando as 
plantas crescerem ... E um samaritano competente, para cuidar do social. 



OS PARADOXOS DE KENNEDY 



Um dos mais embaraçoso episódios de minha carreira diplomática, quando embaixador em 
Washington, foram duas inesperadas indagações que me fez o presidente Kennedy, ao fim de 
uma conversa relativa à implementação do acordo Kennedy-Goulart sobre a transformação, 
em nacionalizações negociadas, das encampações confiscatórias feitas pelo governador Brizola, 
de empresas americanas de telefonia e eletricidade. Eliminar-se-ia, assim, uma área de atrito. 

Ao me despedir, Kennedy dardejou-me duas instigantes perguntas: 

- "Por que , disse ele, no Brasil e na América Latina, há um viés favorável, entre estudantes, 
escritores e artistas, ao modelo soviético, maquilado de "socialismo real"? Deveria ser o 
contrário. Os estudantes adoram mudanças e a sociedade mais experimental do mundo são os 
Estados Unidos, com sua multiplicidade de raças e religiões, pluralismo político e abertura a 
inovações. Quanto aos escritores e artistas ... presume-se que desejem liberdade criadora de 
pensamento e expressão. É precisamente isso que inexiste na União Soviética, onde a doutrina 
do "realismo socialista" condena o individualismo criador e transforma artes e artistas em 
instrumentos de propaganda partidária, sob pena de patrulhamento, gulags, exílios e privação 
dos direitos civis? 

Confesso que fiquei embaraçado, sem resposta direta àquilo que chamei de "paradoxos de 
Kennedy". 

- Quanto aos jovens, balbuciei, parece que a rebeldia natural da idade se transforma em 
preconceito contra o mais forte e o mais poderoso. Os mais poderosos só podem aspirar a ser 
respeitados, nunca amados. A juventude tem encanto por utopias e o capitalismo é rico na 
produção de mercadorias, porém não na produção de mitos. Para os jovens, a fórmula do 
dinamite é mais fácil que a do cimento armado. E acrescentei que talvez Bernard Shaw tivesse 
razão ao dizer que a juventude é uma coisa maravilhosa, sendo pena desperdiçá-la nas 
crianças. 

Mais difícil, acrescentei, é explicar a abundância de intelectuais de esquerda. E, bancando o 
erudito, citei a teoria de Raymond Aron, cujo livro "L'opium des intellectuels" eu conhecia bem, 
por ter prefaciado a edição brasileira. Diz Aron que o surgimento do "socialismo real" criou 
mitos substitutivos dos velhos deuses do Iluminismo: o Progresso, a Razão e o Povo. O novos 
deuses seriam: o mito da Esquerda, o da Revolução e o do Proletariado. Os intelectuais se 
seduziram por uma espécie de romantismo revolucionário, considerando as reformas 
"enfadonhas e prosaicas" e a revolução "excitante e poética". O culto marxista da revolução 
violenta virou uma espécie de refúgio do pensamento utópico. 

Para um político pragmático como Kennedy, interessado na melhora imediata da imagem de 
seu país entre os latino americanos, minhas divagações eram um lance errado. Ele queria 
respostas e eu desovava perplexidades. Há um outro paradoxo que Kennedy não mencionou. É 
que os socialistas, que tanto falam nas massas, não foram os criadores nem do consumo de 
massa, nem da cultura de massa. Essas massificações equalizantes foram produzidas pela 
cultura individualista americana. Hollywood foi uma criação de judeus provindos em grande 
parte dos guetos da Europa Oriental, vítimas de pobreza e discriminação e por isso obcecados 
com a idéia de criar fábricas de sonhos. O cinema, originado no Ocidente, talvez tenha sido a 



primeira "cultura de massa" do mundo, agora ampliada pela televisão e pela Internet, também 
em criações capitalistas. 

Meditei muito ao longo de vários anos e até hoje não tenho respostas. Como explicar a mansa 
aceitação entre nós da cultura americana do jazz, do rock, do fast food, do cinema, acoplada a 
uma rejeição zangada da cultura do capitalismo democrático que lhes deu origem? 

Como explicar que intelectuais de esquerda, que em seu país lutaram pela liberdade criadora e 
pela dignidade da pessoa humana, tivessem simpatizado, ao longo de vários anos de guerra 
fria, com um sistema que institucionalizava a delação, a censura, os expurgos e os gulags. Um 
sistema tão repressivo que levou ao suicídio grandes poetas como Mayakovsky e Ossip 
Mandelstan; que submeteu à censura política óperas de Shostakovich e obrigou filósofos como 
George Lukcás a humilhantes retratações. 

É uma espécie de esquizofrenia ideológica, que se traduziu em mutilação de corpos e almas 
em nome da utopia. É por isso que não gosto das utopias. Como disse o politólogo Raif 
Dahrendorf: "Nada mais anti-liberal que a utopia, que não deixa lugar para o erro nem para a 
correção". 

A CADEIRA DA UBERDADE 

O fundador da "cadeira da liberdade" foi José do Patrocínio, jornalista, panfletário, romancista 
e sobretudo formidável orador. Na tribuna, chamavam-no de "Tigre". O título que mais 
prezava era o de "Herói da Abolição". Contribuíra tanto ou mais que Nabuco ou Rui Barbsoa 
para a liberação de 1,6 milhão de escravos em 1888. Era capaz de incendiar multidões quando 
descrevia o sofrimento dos escravos, a mutilação de suas vidas e a desumanidade da opressão. 
Ao ouvi-lo, Euclydes da Cunha o descrevia como um "tumulto feito homem". Melhor orador e 
jornalista que romancista, legou-nos quatro romances, dois dos quais são uma mistura de grito 
de angústia e panfleto social. O primeiro, "Motta Coqueiro", é um libelo contra a pena de 
morte. O segundo é um pungente relato do sofrimento imposto pela grande seca do Nordeste 
em 1877. Uma coisa interessante é a denúncia por Patrocínio da corrupção das "comissões de 
socorro", que intermediavam as verbas entre o "Retirante" e o "Estado". Eram um sorvedouro, 
fazendo com que os assistentes ficassem melhor que os assistidos. Hoje, 122 anos depois, 
continuamos despreparados para as secas e ainda se fala na "indústria da seca", pois há 
enorme vazamento de recursos em benefício de intermediários, burocratas e políticos. Isso 
testemunha que nossa capacidade de indignação é muito maior que nossa capacidade de 
organização. 

José do Patrocínio morreu de tuberculose, cirrose e, porque não dizê-lo, também de pobreza. 
Esgotara-se sua grande tarefa salvacionista, e com ela murchou seu poder de mobilização. 
Vivia num casebre e sobrevivia de biscates jornalísticos. Daí, como relata seu filho, uma 
tragédia irónica. Ao morrer, em 1905, redescobriu-se o "Grande Homem". Providenciaram-se 
funerais de estado, coches de gala, crepes nos lampiões, cavalos cobertos de pluma negra e 
seu corpo embalsamado ficou exposto numa igreja por 15 dias. Mas no oitavo dia após a 
morte, sua família teve de deixar o casebre em que vivia, sob mandato de despejo. 



José do Patrocínio escolheu para patrono Joaquim Serra, poeta, jornalista e dramaturgo (pois 
foi um dos fundadores do Teatro de Revista) mas sobretudo um colega de combate nas lutas 
em favor da Abolição. Segundo André Rebouças, foi o político que mais escreveu contra os 
escravocratas. Era um filósofo platónico, que se seduziu pelo positivismo de Augusto Comte. 
Se outros títulos lhe faltassem, bastaria lembrar que a legenda republicana "Ordem e 
Progresso" foi título do jornal de província que fundara em 1862. 

Mário de Alencar foi o segundo ocupante da cadeira. Tímido e recluso, ofuscado pela imagem 
do pai, José de Alencar. Eram dois momentos do Brasil. O pai trouxe-nos a imagística do Brasil 
primitivo e bravio com caciques, lutas na selva e cachoeiras selvagens. Mário de Alencar, de 
outro lado, fazia do culto da beleza moral seu estilo de vida. Seu modelo era Sócrates, sábio 
em vida para ser corajoso na morte. Versava, com um toque de pessimismo que o aproximava 
de Machado de Assis, temas da vida urbana na poesia e na ensaística. Curiosamente, tendo 
publicado seus primeiros versos - "Lágrimas" - aos 15 anos, por timidez e excessiva auto-crítica, 
publicou muito menos do que escreveu. Coube a seus filhos promover a edição do romance 
"Sombra", além dos poemas "Goethe" e "Prometeu". Como disse Álvaro de Almeyda, 
detestava oradores e jornalistas e metia-se na solidão para ser livre. 

O terceiro ocupante foi Olegário Mariano, poeta vocacional. Dizia - "Não pretendo ser mais 
que um poeta, bastando-me pouco para conseguir tudo". Essa posição é corajosa, pois os 
poetas, como nada nesse mundo, não têm aceitação unânime. Lembra-nos Gustavo Barroso: 
"Platão queria banir de sua república ideal os poetas como inimigos da verdade. E Santo 
Agostinho propunha infamá-los - como aos comediantes". Olegário foi talvez o último dos 
parnasianos. Ainda aprisionado pelo culto das formas, sem o verso solto do modernismo que 
surgiria com Manuel Bandeira e Carlos Drumond de Andrade. 

Ao contrário de seu antecessor, que tinha uma visão pessimista da peripécia humana, Olegário 
era essencialmente um lírico otimista, de bem com a vida. Foi o poeta das cigarras, dos 
pássaros, dos cães de rua, dos nomes femininos e dos rios solenes, que moldam as cidades. 
Releio-o com nostalgia e um certo grau de manso desconforto, pois sempre preferi a diligência 
das formigas à displicência da cigarras. Alguns dos seus versos são dos mais belos que já vi, 
como no diálogo das duas sombras no "Água Corrente": 

"Eu nasci de uma lágrima. Sou flama 

Do teu incêndio que devora. 

Vivo dos olhos tristes de quem ama, 

Para os olhos nevoentos de quem chora" 

Personalidade curiosa foi o quarto ocupante, Alvaro Moreyra, jornalista, poeta e teatrólogo 
que, transposta a fase boémia da juventude, seduziu-se pela utopia social da Revolução de 
Outubro de 1917. Declarava-se comunista, mas era mais pose que convicção, pois não tinha 
suficiente capacidade de odiar para se engajar na luta de classes. Pedia bênção à Deus todos 
os dias e tinha intimidade com os santos, particularmente São Francisco de Assis, que ele 
chamava de "Chiquinho". O franciscano, amante dos pobres, dos pássaros e da "Soror Acqua", 
foi uma espécie de ecologista medieval, pois assim cantou no "Cântico dei Sole": 



"Laudato sia il mio signore per suora acqua, 

La quale é molto utile et humile et pretiosa et casta". 

Poeta e depois prosador, Álvaro fabricou alguns dos mais belos poemetos que conheci, como 
por exemplo no seu livro "A lenda das Rosas": 

"Pobre cega, porque choram tanto assim estes teus olhos? 

Não, os meus olhos não choram 

são as lágrimas que choram 

Com saudade dos meus olhos" 

Alvaro era um poderoso fazedor de aforismos, como esse: 

- O meu maior prazer é mudar de opinião. Com esse prazer vou evitando a velhice. E 
confirmou isso. Depois da poesia e do jornalismo, dedicou-se, a partir de 1927, à criação 
teatral, com seu "Teatro de Brinquedo", que tinha uma legenda de Goethe: "A humanidade 
divide-se em duas espécies: a dos bonecos, que representa um papel aprendido, e a dos 
naturais, espécie mais numerosa, de entes que vivem e morrem como Deus os fez". 

Dias Gomes considera que com "O teatro de brinquedo" Álvaro contribuiu para que o teatro, a 
única arte que não participara da Semana de Arte Moderna, começasse uma tarefa de 
renovação que possibilitaria depois a revolução cénica e dramatúrgica dos anos 50 e 60. 

O quarto ocupante da cadeira foi Adonias Filho. Pertencia em Salvador à "Ação Integralista", 
sem que isso embaraçasse sua amizade com Jorge Amado, que labutava na "Juventude 
Comunista". Quando ingressou nesta Academia, já um dos próceres importantes da Revolução 
de 1964, insistiu em ser recepcionado por Jorge Amado, que então era considerado, em alguns 
círculos militares, como "subversivo pornógrafo". 

Adonias pertencia à geração literariamente fecunda da região dos cacaueiros. Foi um 
romancista anti-romântico, como dizia Jorge Amado, num mundo de espanto e de terror, onde 
"os seres não são de bondade e ternura, mas sobreviventes que podem virar algozes". Sua 
significação especial é que marcou uma espécie de "divisor de águas". Ao contrário da 
literatura dos anos 30, em que a natureza bela e seivosa parecia mais importante que o 
homem, na literatura de Adonias prevalece o bicho homem, sem doçura e esperança, face a 
taboleiros árduos e vazios, onde a enxada tinha sempre como alternativa o punhal. 

Adonias procurou dar dimensão universal ao regionalismo. Rachel de Queiroz nele descobre 
traços dostoiewskianos diferentemente infletidos. No mestre russo, os elementos dramáticos 
são impregnados de conflitos religiosos e morais - pecados que levam à danação - enquanto 
que as personagens de Adonias são ligadas a códigos de instinto, na disputa pela terra, sob as 
agressões do desemprego, desesperança e vingança. Alguns, como nota Dias Gomes, 
consideram sua prosa enxuta e sincopada, comparável à de Machado de Assis, Graciliano e 
Guimarães Rosa, sem ter jamais alcançado prestígio remotamente parecido. Talvez tenha 



havido uma censura recôndita por causa do seu passado integralista, absurdamente 
considerado como um desengajamento das questões sociais. 

Seus primeiros romances, os da zona cacaueira, como "Corpo Vivo", e "Memórias de Lázaro" 
são romances de vingança e desesperança. Há depois romances da raça negra, da saga de 
liberação frustrada e finalmente uma terceira fase, a do romance "O forte", passado em 
Salvador, e já impregnado de paixão, misticismo e rendição à esperança. 

À parte o mérito literário de seu estilo de tragédia grega, Adonias sempre conseguiu superar 
disputas ideológicas de personalismo injurioso ou censura à criação cultural. Como disse Dias 
Gomes: - Saltando o largo fosso das ideologias, mas distinguindo amigos e inimigos, usou seu 
prestígio para reparar injustiças, defender perseguidos, evitar crueldades. 

Inclusive, conta-nos Jorge Amado, sustando processos de alguns intelectuais de esquerda que 
o haviam maltratado e deles se vingariam se chegasse ao poder..." 

O CASAL DE DRAMATURGOS 

Dizia Langston Hughes, grande poeta negro americano, que "a boa canção é aquela que fica 
zumbindo teimosamente nos nossos ouvidos". Grande peça teatral é aquela que consegue 
transformar figuras do palco em presenças do nosso quotidiano e peças do nosso folclore. Sob 
esse aspecto, Dias Gomes é um grande dramaturgo. Suas criaturas no teatro, e depois no 
cinema e televisão, - "Zé do burro", "Branca Dias", "Odorico o Bem Amado", "Roque santeiro" 
e a "Viúva Porcina", são hoje inquilinos de nossa paisagem. É impossível analisar a vida e a 
obra de Dias Gomes sem mencionar Janete Emmer, sua esposa por 33 anos, que adotou o 
sobrenome artístico de Clair, apaixonada que era pelo "Clair de Lune", de Debussy. Se Dias 
Gomes foi um inovador como dramaturgo, Janete foi pioneira nas telenovelas, com sucessos 
inesquecíveis tais como "Irmãos Coragem", "Selva de Pedra", "O Astro" e "Pecado Capital". 
Esta foi escrita apressadamente para a TV Globo, a fim de substituir a peça "Roque Santeiro", 
de seu marido, que ficou suspensa por dez anos, no período mais obscurantista da censura 
militar. Depois de 1985, "Roque Santeiro" tornou-se um grande sucesso televisivo. 

Dias Gomes se descreve, em sua interessante e provocante autobiografia, como "Um 
perseguido precoce". Escreveu sua primeira peça a "Comédia dos moralistas", aos 15 anos e a 
peça "Pé-de-Cabra", aos 18 anos. Esta fora encomendada por Jaime Costa por antagonismo a 
Procópio Ferreira, e ironicamente acabou por este próprio encenada, quando Dias Gomes não 
passava dos 20 anos. Não sem castração pela censura, de dez páginas, incidente que ensinou 
Dias Gomes a driblar os censores de vários governos, todos de saudável burrice na prática do 
métier. A peça foi considerada "marxista" numa época em que Dias Gomes nem sequer lera 
Marx. 

É difícil escolher, na vasta produção do dramaturgo as melhores obras. Diga-se de início que, 
apesar de sua versatilidade, escrevendo tanto para o teatro como para o rádio e televisão, Dias 
sempre considerou o teatro sua principal vocação. Dizia que o teatro é a única arte que usa 
como expressão "a criatura viva, sensível e mortal". Outras artes como o cinema, a pintura, a 
escultura, refletem a criatura humana através de imagens captadas, mas não a apresentam 
viva. Acrescentava que à televisão faltava "poder de conscientização" e "perenidade", 



enquanto "o teatro respira eternidade". Inconscientemente, Dias Gomes incide num elitismo 
subliminar. É verdade que o teatro foi originalmente uma arte comunal e, portanto, "popular", 
como nos anfiteatros gregos. Mas gradualmente se tornou uma arte intimista frequentada 
pela elite burguesa. A democratização da mensagem viria com a televisão, e hoje a Internet, 
ambas invenções capitalistas. Jorge Amado escolheu dez peças como sendo o núcleo central 
da obra de Dias:- "O Pagador de Promessas", "A Revolução dos Beatos", "O Bem Amado", "O 
Berço do Herói", "A Invasão", "O Túnel", "Os Campeões do Mundo", "Amor em Campo 
Minado" e "Meu Reino por um Cavalo". 

Leon Liday, o teatrólogo que mais conhece e admira a obra de Dias Gomes, elege como suas 
preferidas "O Pagador de Promessas", "O Berço do Herói" e "Vargas". 

"O Pagador" seria nitidamente realista, o "Berço do Herói" e "O Santo Inquérito" nitidamente 
expressionistas. Aquela uma sátira mordaz e a segunda um drama histórico-lendário altamente 
surrealista. "Vargas" é também um drama histórico-lendário, porém musicalizado sob a forma 
de um samba de enredo. Minhas preferências são pelo tríptico - "O Pagador de Promessas", "O 
Santo Inquérito" e "A Revolução dos Beatos". As duas primeiras são chamadas por Anatol 
Rosenfeld, o grande crítico teatral, de "misticismo popular". 

- "O pagador", esclarece Dias Gomes, em resposta a alguns críticos, não é uma peça anti- 
clerical. É uma peça contra a ignorância e o fanatismo, uma fábula sobre a liberdade de 
escolha". Versa três conflitos. O primeiro é o do catolicismo com o sincretismo, advindo da 
mistura dos símbolos cristãos (Santa Bárbara) com o candomblé (lansan); o segundo é o do 
conflito entre o simplismo sincero do sertanejo e o formalismo inflexível do clérigo, o terceiro 
é o choque psicológico e moral resultante da incapacidade de comunicação entre a 
ingenuidade cabocla e a malta de jornalistas, rufiões e prostitutas da cidade. Esses exploram o 
exoticismo arcaico da pobreza do "Zé doBurro"de caminhar 43 quilómetros, dilacerando seus 
ombros sob cruz pesada, para cumprir promessa feita a Santa Bárbara (ou lansan) por ter salvo 
o burro Nicolau. Há um toque rousseaunista no contraste entre o camponês puro e a cidade 
perversa. O burro humaniza o homem e os homens emburrecidos sacrificam "Zé", o pagador 
de promessa. A cena do "Zé do Burro", que só cumpriu seu rígido voto depois de morto, 
quando a multidão arromba as portas da igreja, é de grande pungência. 

Isso explica o enorme sucesso da peça aqui e no exterior. Desde sua estréia em 1960, foi 
traduzida para mais de dez línguas e exibida pelo menos seis vezes nos Estados Unidos, e em 
numerosos outros países dos dois lados da guerra fria. Ganhou em 1962 o prémio "Palma de 
Ouro" do Festival de Cannes, numa versão cinematográfica dirigida por Anselmo Duarte. Isso 
atesta que Dias Gomes conseguiu transformar um drama regional num apelo universal contra 
a intolerância. 

A segunda peça de minha preferência é "O Santo Inquérito". A Inquisição não é peculiaridade 
católica, pois os puritanos de Massachusets queimaram as bruxas de Salem, em 1692, evento 
recordado pelo grande dramaturgo americano, Arthur Miller, em sua peça "Crucible". 

"O Santo Inquérito" versa um tema diferente: a colisão entre o sexo e a religião. A bela Branca 
Dias, que foi vista banhando-se nua à luz do luar, cometeu dois erros: aprendeu a ler, o que lhe 
facultava leituras proibidas, e beijou na boca o padre Bernardo para livrá-lo do afogamento. 



Esse piedoso ato de salvação é visto como concupiscência. Branca acaba perdendo as pessoas 
que mais amava por causa da obsessão de padre Bernardo, que por ela desenvolveu desejos 
pecaminosos. Oficial do Santo Ofício, procurou induzi-la no processo a retratar-se de faltas que 
não praticara, como se a confissão do próximo fosse uma auto purificação do pecador. 

A terceira peça de minha triologia é "A Revolução dos Beatos". Se "O Pagador' é um libelo 
trágico contra o misticismo fanático, "A Revolução dos Beatos" é um libelo satírico contra a 
manipulação política do fanatismo religioso. Dessa arma satírica Dias Gomes depois se 
utilizaria habilmente em peças como "Odorico bem amado" e "Roque Santeiro". 

Curioso truque de Dias Gomes é a "animalização da bondade". No "Pagador" é o burro Nicolau 
que tem "alma de gente", e na "Revolução dos Beatos" é o Boi Santo, presenteado pelo 
político Flório ao Padre Cícero, que fazia milagres. Atendendo, inclusive, à safada súplica de 
Bastião para induzir Zabelinha a se enrabichar por ele. O último texto que eu gostaria de 
comentar é a auto-biografia de Dias Gomes, uma mistura deliciosa de humor, história familiar 
e engajamento político literário. 

O TEXTO SEM CONTEXTO 

Comentei com maravilhamento alguns textos de Dias Gomes. Falta falar sobre o contexto 
histórico dos anos da guerra fria, que ele e eu vivenciamos, fazendo ambos apostas 
divergentes sobre o curso da história. Tanto em seu discurso de posse nesta Academia como 
em sua auto-biografia, Dias Gomes desfolha um libelo contra os chamados "anos de chumbo" 
do período militar, com seus excessos repressivos e mutilação das liberdades, esquecendo-se 
de interpretar a peripécia brasileira no contexto da guerra fria. Não se menciona sequer 
minimamente alguns aspectos construtivos, como o fato de o Brasil nesses anos ter passado 
da retaguarda incaracterística dos emergentes para a posição de oitava potência industrial do 
mundo. E tudo se passa como se o autoritarismo no Brasil fosse uma exótica perversão 
somente acontecida no Trópico do Capricórnio. 

Um mínimo de análise histórica comparativa teria levado Dias Gomes a fazer um balanço mais 
benigno. Samuel Huntington, o famoso politólogo de Harvard, defendeu a tese das ondas e 
refluxos periódicos da democratização no mundo. Na década dos 60 e começo dos 70 teria 
havido uma guinada autoritária mundial, de tal forma que um terço das sociais democracias 
que funcionavam no pós-guerra acabassem interrompendo seus processos democráticos. 

Na América Latina surgiram vários regimes, que 0'Donnell e Huntington chamam de 
"autoritarismos burocráticos". No Brasil e Bolívia, em 1964; na Argentina em 1966; no Peru em 
1968; no Equador em 1972; no Uruguai em 1973. Houve golpes militares na Coréia do Sul em 
1961; na Indonésia em 1965; na Grécia em 1966. Em 1975, foi imposta a lei marcial nas 
Filipinas e Indira Gandhi declarava um regime de emergência na índia. A rigor, o pioneirismo 
da guinada autoritária, desta vez em favor da esquerda, foi o de Fidel Castro em Cuba, o qual 
ascendeu ao poder em 1959, aderiu ao comunismo pouco depois e aparentemente não tem 
planos para deixar o poder. 

É paradisíaca a visão até hoje mantida por vários intelectuais de esquerda que o Brasil em 
1964 tinha uma opção tranquila entre a liberal democracia e a social democracia. A real opção 



era entre um autoritarismo de esquerda e um autoritarismo de centro direita, que se dizia 
transicional. No Brasil, tivemos um autoritarismo encabulado, que se sabia biodegradável, que 
admitia o pluripartidarismo, que mantinha, ainda que manipuladas, instituições democráticas, 
que postulava a restauração democrática como objetivo último da evolução social. Isso é 
diferente dos autoritarismos totalitários, ideologicamente rígidos, sanguinários quanto a 
dissidentes, e convictos de que o determinismo histórico asseguraria a ditadura da classe eleita 
- o proletariado. 

Melancólicas veramente eram nossas alternativas nos primeiros anos da década dos 60, 
quando a guerra fria atingia seu apogeu:- ou anos de chumbo ou anos de aço. Alhures, os anos 
de aço duraram 72 anos na União Soviética, quase meio século na Cortina de Ferro e ainda há 
espécimes ditatoriais sobreviventes. 

Dias Gomes tem razão em verberar, a posteriori, a idiotice da censura, o sofrimento de 
idealistas torturados, o amargor dos exilados. Que esses dilaceramentos do tecido social não 
se repitam mais. 

Mas os anos de chumbo tiveram derretimentos que jamais ocorreriam se tivéssemos "anos de 
aço". Um "derretedor de chumbo" já citado, foi Adonias Filho que combatia as ideologias mas 
respeitava os ideólogos. Outro foi nosso ilustre confrade Roberto Marinho. As "Organizações 
Globo", tidas como bastião do capitalismo reacionário, deram, no interregno autoritário, 
guarida a vários intelectuais e artistas de esquerda, que receberam sustento sem exigência de 
conformismo esterilizante. 

Desde 1969 foi lá que se abrigaram Dias Gomes e Janete, por quase três décadas, para 
produzir obras que serão o encanto de várias gerações. Não sofreram constrangimentos 
ideológicos, como reconhece o próprio Dias. E os profissionais da organização o ajudaram-no 
muitas vezes a driblar a censura e a preservar, sob pseudónimos, a mensagem fundamental do 
dramaturgo. 

Uma vez, conversando com o nosso ilustre confrade Roberto Marinho, apontei-lhe 
contradições entre o tom conservador dos editoriais, de um lado, e os cabeçalhos e noticiários 
enviezados, de outro, que desmereciam a classe empresarial e as idéias liberais. 

Definitivamente, nosso confiável confrade nem sempre dá conselhos confiáveis. Quando lhe 
pedi que partilhasse comigo o segredo de sua fecunda longevidade, respondeu-me: saltar a 
cavalo e fazer pesca submarina. - Logo eu... que não gosto de cavalos e detesto o cheiro de 
peixe. 

Digo estas coisas para acentuar o contraste entre a repressão dos "anos de chumbo" e o que 
seria a repressão dos "anos de aço", que teríamos de atravessar se vitoriosa a aposta de 
muitos de nossos intelectuais na opção comunista. Consideremos o diferencial de sofrimento. 

Dois dos maiores nomes da literatura mundial - Bóris Pasternak e Solzhenitsyn - ganharam o 
prémio Nobel em 1958 e 1975, respectivamente, durante os anos de aço. E experimentaram 
incríveis perseguições. Foram ambos expulsos da União dos Escritores Soviéticos, o que 
naquele regime fechado significa desemprego e morte civil. Solzhenitsyn foi preso em 1974, 
acusado de traição pela publicação, no exterior de sua grande obra "O Arquipélago Gulag". Na 



Rússia somente 25 anos depois foi autorizada sua publicação na revista literária "Novy Mir". 
Foi exilado da União Soviética, passando a viver nos Estados Unidos e só então poude ter 
acesso ao seu Prémio Nobel. 

Pasternak teve de renunciar ao Prémio Nobel. Sua obra prima - Dr. Zhivago - que chegara ao 
exterior em 1957, através de manuscritos contrabandeados, só foi autorizada na Rússia em 
1985, 28 anos depois! Consta que só escapou dos expurgos de Stalin, nos anos 30, porque 
havia traduzido para o russo poemas de poetas georgeanos, compatriotas de Stalin. 

Dolorosa foi a carreira de Ana Akhmatova, talvez a maior poetisa russa desde Puskhin. Seu 
marido foi executado em 1921 e seu filho preso e exilado para a Sibéria em 1949, ambos por 
"não conformistas". O Comité Central do Partido Comunista condenou sua obra poética em 
1946 por seu "eroticismo, misticismo e indiferença política". Foi também expulsa da União dos 
Escritores Soviéticos e por três anos proibida de escrever qualquer coisa. Sua mais longa obra, 
"Poema Sem Herói", escrita entre 1940 e 1962, só teve sua publicação autorizada 14 anos 
depois. 

Outra grande figura da física nuclear, Sakharov, que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 1975, 
foi em 1980 despojado de todos os seus títulos e vantagens como grande cientista, e exilado 
para a cidade fechada de Gorki. Só em 1986, após a "glasnost" de Gorbachev foi autorizado a 
retornar a Moscou. 

Definitivamente os "anos de aço" foram mais brutais que os "anos de chumbo". 

Nem adianta dizer que a utopia socialista não se realizou na Rússia, mas realizar-se-ia alhures. 
Há uma brutalidade ínsita no marxismo-leninismo, que se manifestou tanto no socialismo 
louro da Europa Oriental, como no socialismo moreno do Caribe, no socialismo negro dos 
africanos e no socialismo amarelo da China e do Vietnam. A violência é da natureza da besta... 

CONVITE TRISTE 

Agora que conheço bem a obra de Dias Gomes, lamento não tê-lo conhecido em pessoa. 
Minha paisagem humana e cultural ficou com isto muito mais pobre. Se o encontrasse, seduzi- 
lo-ia para um encontro de fim de tarde, recitando-lhe o "Convite triste", de Carlos Drummond 
de Andrade. 

"Meu amigo, vamos sofrer, 
vamos beber, vamos ler jornal, 
vamos dizer que a vida é ruim, 
meu amigo, vamos sofrer. 
Vamos fazer um poema 
ou qualquer outra besteira... 



Vamos, beber uísque, vamos.. 



Eu lhe prometeria que não seria uísque nacional e que falaríamos mal do Governo, qualquer 
Governo. Pois, como dizia Milton Campos, "falar mal do Governo é uma coisa tão gostosa que 
não pode ser privilégio da oposição". 

Certo estou que ao fim de algumas rodadas, talvez na curva do conhaque, estaríamos do 
mesmo lado da cerca, concordando com as seguintes premissas: 

- "Todas as revoluções passam e, como nos alertou Franz Kafka, "só fica o lodo de uma nova 
burocracia"; 

- Só há uma coisa errada com a palavra revolução. É a letra R; 

- Há gente demais levantando muros e gente de menos construindo pontes. 

Que pena, não ter tido um "papo cabeça" com Dias Gomes. Que pena, m,eu Deus... 
NA VIRADA DO MILÉNIO 

Espera-se de um economista que diga algo sobre perspectivas económicas. Hesito em fazê-lo, 
não só porque é perigoso profetizar (especialmente sobre o futuro), como porque minha 
profissão não está em odor de santidade. Diz o populacho que nossos prognósticos são ainda 
menos confiáveis que as previsões meteorológicas do INPE e que quem acredita nos 
planejadores económicos deveria olhar para o camelo: "é um cavalo desenhado por um comité 
de economistas". Chego a esta Academia em fim de século e começo de milénio. 

Este século foi o pior dos séculos. Este século foi o melhor dos séculos... Foi o pior dos séculos 
porque, em duas guerras mundiais e em conflitos ideológicos, religiosos, raciais e tribais, 
estima-se que pereceram cerca de 170 milhões de pessoas. Mais que o total de mortos em 
guerras, desastes e pestes desde o começo da história humana. E foi também o melhor dos 
séculos, porque nele houve coisas milagrosas: 

- A descoberta do segredo do átomo (para o bem ou para o mal); 

- A descoberta do segredo da vida (a dupla hélice); 

- A morte da distância e o encurtamento do tempo; 

- A escapulida de nossa prisão orbital, para bolinarmos outros planetas e, quiçá, estrelas; 

- O rompimento, por centenas de milhões de pessoas, dos grilhões da pobreza ancestral. 

A pobreza deixou de ser uma fatalidade, para se tornar o subproduto de opções erradas e os 
desvios de comportamento. Conhece-se, hoje, a grande síntese do crescimento: estabilidade 
de preços na macroeconomia; competição na microeconomia; abertura internacional; e 
investimentos massiços no capital humano. "De nada valem a torre nem a nave", dizia Sófocles, 
"sem o homem". 

A sociedade do próximo milénio será uma sociedade globalizada e digitalizada. Ignorar essas 
coisas seria auto-mutilação. Nossa linguagem girará em termos de bits, muito mais que de 
"átomos". Na era digital, até os "literatos" terão de virar "digeratos". 



A primeira coisa a fazer-se no Brasil é abandonarmos a chupeta das utopias em favor da 
bigorna do realismo. É tempo de balanço e autocrítica. E, sobretudo, de ginástica institucional, 
a fim de nos prepararmos para a quarta onda de crescimento do pós-guerra, que 
provavelmente advirá na primeira década do milénio, apoiada em três revoluções 
tecnológicas: 

- A revolução da Internet, que eliminará vários constrangimentos de tempo e espaço; 

- A revolução da engenharia genética, que depois do facasso da engenharia social em reformar 
o homem moral, pode ter sucesso na reformatação do homem físico; 

- A revolução da nano-tecnologia que, pela miniaturização, substituirá nos produtos, cada vez 
mais o insumo físico pelo insumo cognitivo. 

Para a minha geração, confiante em que o Brasil chegaria ao ano 2000 não como país 
emergente e sim como grande potência, forte e justa, este fim de século é melancólico. 
Estamos ainda longe demais da riqueza atingível, e perto demais da pobreza corrigível. Minha 
geração falhou. Confiteor. 

Agradeço aos benévolos confrades terem aceito em sua grei uma personalidade controvertida. 
Prometo-vos, em verdade vos prometo, agir como os mulçumanos que descalçam suas 
sandálias na porta da mesquita, para não contaminá-la com a poeira, o barro e o estrume das 
ruas. Descalçarei minhas botas ideológicas nos umbrais desta Casa. E aqui obedecerei 
fielmente à regra de Joaquim Nabuco, em seu discurso inaugural de secretário geral, na sessão 
de 20 de julho de 1897: 

"Eu confio, disse ele, que sentiremos todos o prazer de concordar em discordar; essa 
desinteligência essencial é a condição da nossa utilidade, o que nos preservará da 
uniformidade académica. Mas o desacordo tem também o seu limite, sem o que 
começaríamos logo por uma dissidência". 

Interpreto meu ingresso nesta Academia, menos como uma sóbria avaliação de meus méritos 
pessoais, do que como uma homenagem ao meu estado natal - Mato Grosso - que nos 102 
anos de vida deste sodalício só teve um representante, Dom Aquino Correia, arcebispo de 
Cuiabá, falecido em 1956. Era filósofo, escritor e poeta, capaz de versejar com igual aisance em 
latim e em português. Personalidade eminente e pacificadora, foi também presidente do 
Estado, em situação emergencial, unindo assim o poder espiritual do arcebispado com o poder 
temporal da governança. Essa fusão dos dois poderes era privilégio dos papas antigos. 
Certamente não espero repetir tal façanha, mas espero não desmerecer da presença culta de 
Dom Aquino neste sodalício, nem apequenar a representação de meu Estado. 

Agradeço a presença do governador em exercício de Mato Gosso, José Rogério Salles, e do 
eminente presidente da Academia Matogrossense de Letras, João Alberto Gomes Novis 
Monteiro, da qual me honro de ser membro. 

Tenho também uma cidade-pátria adotiva, o Rio de Janeiro. Seu ilustre prefeito aqui presente, 
Luiz Paulo Conde, urbanista de reputação que já transpôs nossas fronteiras, costuma honrar- 



me dizendo que sou senador pelo Rio de Janeiro, pois ganhei eleições aqui na metrópole, 
perdendo no resto do Estado porque nem todo o mundo tem o bom gosto dos cariocas... 

Agradeço ao excelentíssimo senhor presidente da República ter enviado como seu 
representante o ilustre ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, meu dileto amigo, com 
quem fiz várias campanhas políticas, de resultados curiosos: eu pedia votos para mim e os 
votos iam para ele... 

Com Fernando Henrique convivi oito anos no Senado Federal e tínhamos férvidos debates 
sobre capitalismo e liberalismo. Referindo-se ele a um artigo que escrevi sobre liberalismo, 
disse que, apesar de algumas discordâncias, considerava-o de alto nível. Ao que lhe respondi:- 
Pudera... escrito no avião, entre Brasília e Rio, a 10.000 mt de altitude, só poderia ser de alto 
nível... 

Agradeço ainda a presença do ilustre senador Antonio Carlos Magalhães, presidente do 
Congresso, meu velho amigo de andanças e paranças, cujo filho Luiz Eduardo até hoje 
relembro com dolorida saudade. Agradeço também a presença do presidente da Câmara dos 
Deputados, Dr. Michael Temer, sob cujas ordens trabalhei. Poderá ele atestar que fui um 
deputado presente e diligente, e diria até agradável, pois não aborrecia o Plenário com 
grandes falações. 

Agradeço, finalmente à minha família, Stella, Roberto, Sandra e Luiz Fernando, por tolerarem 
minhas ausências e impaciências ao longo de campanhas políticas e académicas. 

Para os que me consideram proprietário de uma visão pessimista da história, não gostaria de 
terminar o milénio com uma nota melancólica. E usarei uma expressão do grande filósofo 
liberal Raymond Aron, menos popular que Sartre em seus dias, mas muito mais correto em 
suas previsões de futuro: "nós perdemos o gosto das profecias, mas não esqueçamos o dever 
da esperança." Academia Brasileira de Letras 

Av. Presidente Wilson 203, Castelo | CEP 20030-021 | Rio de Janeiro | RJTel: (21) 3974-2500 | 
E-mail: academia @ academia.org.br 

http ://www.academia. org.br/abl/cgi/cgilua. exe/sys/start.htm?infoid=238&sid=232 
Prof. Dr. Darcy Carvalho, Subsídios para o Estudo do Pensamento Económico Brasileiro 


01 PROJETO DE PESQUISA EM ANDAMENTO
 
Projeto de Pesquisa apresentado à FEAUSP, no ano de 
2013, na condição de Professor Senior.  

Título da Pesquisa: História do Pensamento Econômico Brasileiro no Século XX. Subtítulo: As estratégias e políticas do desenvolvimento econômico do Brasil, da proclamação da República aos dias de hoje. Subsídios para uma História do Pensamento Econômico Brasileiro depois da Independência de Portugal.

A
ndamento do projeto:
a consecução da pesquisa ainda depende da coleta adicional de material bibliográfico em revistas de economia e em sites sobre pensamento econômico. O projeto continuará pelos próximos dois anos, com redação parcial do conteúdo (04/12/2015).

Objetivos do Projeto

Serão objetivos precípuos do trabalho registrar  os nomes   e reavivar as obras  dos economistas,  eventualmente as obras e os nomes  de outros cientistas sociais,  que atuaram na área econômica , no Brasil, no século XX .

Metodologia.

Este trabalho, que se ocupará de  pessoas e fatos concretos da evolução econômica brasileira,  adotará  metodologia teórica,  histórica , biográfica e bibliográfica;  destacará a contribuição  dos economistas brasileiros ou não, acadêmicos ou não, sem discriminação ideológica, ao processo de desenvolvimento da economia  do Brasil no seculo XX ; e  assinalará o embate das duas linhas de pensamento econômico que  persistiram  neste país  ao longo de todo o século XX,  uma característica  da  política  econômica brasileira.

Justificativa.

1.Na história econômica brasileira, o século XX caracteriza-se como sendo aquele  em que o Brasil  deixou de ser uma economia sub-desenvolvida  para tornar-se uma das maiores economias do mundo.   Nesta transformação participaram várias dezenas de economistas, brasileiros e estrangeiros,    quer com seus escritos,  quer  através de sua  ativa participação no governo, seja como formuladores,  seja   como críticos ferozes da  política econômica adotada.

2. Desde o inicio do século XIX, apareceram  em nosso país numerosas  publicações de caráter econômico,  em que escreveram importantes economistas brasileiros e estrangeiros. No século XX surgiram as grandes revistas econômicas ligadas a think tanks ou a instituições governamentais, tais como Cultura Política, Digesto Econômico, Conjuntura Econômica, Revista Brasileira de Economia, bem como publicações internacionais, das NAÇÕES UNIDAS, do FMI, da CEPAL, da OECD, da OIT,  que tiveram a participação de brasileiros ou o Brasil como objeto de análise.

3. São numerosos os livros de economistas que propuseram programas de desenvolvimento para o país, sendo o caso brasileiro um caso típico de desenvolvimento com ativa participação estatal.

4. O crescimento mundial no mesmo século, com sua rápida transformação, via expansão do comercio, e revolução tecnológica acelerada, fornece excelente oportunidade de comparação do pensamento econômico brasileiro com as  duas diretrizes econômicas distintas que pautaram o crescimento mundial até 1989. Tivemos representantes importantes de ambas no Brasil.

5. Apesar de  diversos estudos de caráter historiográfico  terem proposto   diferentes   periodizações  para o estudo desta  fase  da historia econômica brasileira, tomando como referência pessoas ou  eventos puramente políticos, nosso trabalho procurará enfocar principalmente, mas não apenas, o panorama interno e internacional   da ciência econômica,  e suas aplicações  na formulação das políticas econômicas  do Brasil , ao longo do seculo XX, nosso  primeiro século republicano e desenvolvimentista.

Tópicos constitutivos do trabalho

Em cada tópico procurar-se-á  identificar  fatos , economistas e obras:

1.  Os primeiros  agitados trinta anos  do seculo XX de acomodação republicana: caracterização da situação econômica e social do país.  A atuação dos últimos economistas do Império. A transformação da economia agrária,  a imigração intensa e o início do crescimento urbano;

2.  Da revolução dos anos trinta até a segunda guerra mundial:  primeira formulação do projeto brasileiro de industrialização;

3. Economistas e política econômica  do Brasil no pós-guerra, 1945- 1960: o desenvolvimento como meta explícita de governo;

4 . A revolução  militar e seu programa  econômico, 1960- 1985: consolidação do industrialismo e a  internacionalização econômica do país;

5. Os economistas e os problemas econômicos do fim do século XX: o colapso dos grandes modelos, a globalização  e a grande  crise das economias mundiais.

6. Algumas considerações sobre a clivagem ideológica dos economistas brasileiros e suas consequências.

Conclusões.

02 BIBLIOGRAFIA E FONTES DE CONSULTA

O levantamento de  uma  bibliografia  que permita fundamentar  uma  história do pensamento econômico brasileiro  é parte integrante  do trabalho.Prof. Dr. Darcy Carvalho. Faculdade de Economia Administração e Contabilidade. Departamento de Economia. Universidade de São Paulo, em 29/04/2013.

PENSAMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO NO SÉCULO XX: Fontes de Consulta na Internet

Anotaremos links de entidades que disponibilizem material de interesse para a pesquisa. Durante o século XX generalizou-se a prática da publicação de artigos em revistas especializadas. Isto acarretou uma grande dispersão do material acadêmico relevante e aumento da dificuldade de acessá-lo. Felizmente nestes primeiros dez anos  do século XXI, concretizam-se os augúrios de Roberto Campos acerca da revolução digital.

'A sociedade do próximo milénio será uma sociedade globalizada e digitalizada. Ignorar essas coisas seria auto-mutilação. Nossa linguagem girará em termos de bits, muito mais que de "átomos". Na era digital, até os "literatos" terão de virar "digeratos". - A revolução da internet, que eliminará vários constrangimentos de tempo e espaço; 'Full text of "ROBERTO DE OLIVEIRA CAMPOS ( 1917- 2001). ECONOMISTA, DIPLOMATA, PROFESSOR. DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS"

1. http://biblat.unam.mx/pt/revista/revista-brasileira-de-economia/5    ;    http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=0034-7140&lng=en&nrm=iso

03 SUBSIDIA FOR THE HISTORY OF BRAZILIAN ECONOMIC THOUGHT IN BRAZILIAN PUBLICATIONS

REVISTA BRASILEIRA DE ECONOMIA . A large sample of articles from the Revista Brasileira de Economia ( FGV), in Portuguese,  on Economics and on the Brazilian economy and its development  process ,  written by Brazilian and foreign authors, can be downloaded from Biblat  (  'un portal especializado em revistas científicas y acadêmicas publicadas en la  América Latina y en el Caribe').   The  Fundação  Getúlio Vargas was crucial in the  spreading  of   economic knowledge in Brazil, in the second half of the twentieth century . Among the most important  editorial initatives of FGV , two  publications  deserve special attention of students : the Revista Brasileira de Economia ( Brazilian Economic Review) and  the  Conjuntura  Econômica.  The RBE contains technical articles while the Conjuntura , especially in the seventies, was crucial for the development of economic  policy awareness  in Brazil. [...]  20/06/2014

http://biblat.unam.mx/pt/revista/revista-brasileira-de-economia/

Source: Biblat.  http://biblat.unam.mx/pt/sobre-biblat

04 PENSAMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO NO SÉCULO XX. PERIODIZAÇÃO PRELIMINAR DO PROJETO.

Prof. Dr. Darcy Carvalho. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil [01/06/2013]

Para facilitar a coleta de dados, de documentos, biografias , bibliografias, e de obras básicas , o estudo do pensamento econômico Brasileiro no seculo xx será dividido em   períodos históricos, balizados pela atuação e/ou obra de um grande economista, entendido como grande economista aquele que tiver deixado obra, ou tenha atuado no governo , ou tenha  trabalhado e escrito  á testa de algum thinktank importante no encaminhamento das questões econômicas do período estudado.

Nossa definição nada tem de gratuita nem de depreciativa, visto que desde a grande fase mercantilista e fisiocrática da história europeia, a economia tem sido uma ciência aplicada, social e politicamente,  marcada  sempre pela atuação de algumas grandes figuras acadêmicas ou de governo.

 A intensa eclosão de teoria econômica, simples  resultado do desenvolvimento dos métodos matematicos, estatisticos, e econometricos, desde Walras e Pareto, mas principalmente depois dos anos trinta,  não encontra ao longo do século xx, no Brasil, nenhum  autor que tenha deixado obra perene ou relevante a nivel internacional,  ou teórico, a não  ser Alde Sampaio, economista matematico, e o economista Celso Furtado que,  com alto desempenho e destreza literaria, conseguiu ampla difusão mundial para sua obra, ao  traçar e impor, com visão pessoal,  um panorama amplo dos processos e meandros do desenvolvimento econômico brasileiro, sul-americano e mundial, mediante a aplicação de uma tecnica expositiva sui-generis, que combina leve tintura de metodos econômico- matematicos  com   muita historia e  moderada ideologia  marxista.

É preciso lembrar também  que todos os  nossos economistas, que atuaram na area econômica do governo,  ate a criação das faculdades de economia, por volta de 1940, eram também juristas, porque as faculdades de direito é que tinham o monopolio pedagogico do ensino da economia politica, desde a criação dos cursos juridicos no Brasil por d. Pedro I.

Adotado este criterio de periodização poderemos dividir provisoriamente  o nosso espaço temporal de pesquisa em periodos como os seguintes : I. 1889- 1920 de Rui Barbosa a Amaro Cavalcanti. II. I920-1930, de Amaro Cavalcanti a Roberto Simonsen. III. I930-1954, economistas da Era Vargas. V. 1954- 1964. Celso Furtado,  VI.  1964-1985. De Roberto Campos a Delfim Neto. VII. 1985- 2010. Economistas contemporaneos ainda atuantes.

Nessa divisão influem  certamente os diferentes periodos presidenciais, que desde a decada de trinta desenharam o modelo Brasileiro de desenvolvimento. Tema subjascente á pesquisa toda.

Cada periodo presidencial  caracterizou-se  por diferentes preocupações econômicas, politicas e sociais, nunca imunes a pressões internacionais e aos  solavancos da economia mundial.

Preliminarmente faz-se necessário coletar e ler o muito que vem sendo escrito sobre o pensamento econômico brasileiro, neste país e fora, criando pequenas listas tematicas de leitura, que permitirão  melhor precisar a nossa futura distribuição da materia e dos autores.

Esta  proposta de pesquisa,  que  apenas esboçamos, na area do pensamento econômico brasileiro, integra-se  no quadro amplo da cultura nacional, permitindo amplo leque de estudos interdisciplinares em que entram a historia e a geopolitica Brasileiras como interfaces privilegiadas, a primeira como contexto inseparavel e determinante , a segunda como  balizadora do esforço nacional de autodeterminação e de desenvolvimento econômico e social.

O pensamento econômico brasileiro,  esforço intelectual de brasileiros e estrangeiros, não deve ser entendido como mero comentario sobre a construção de modelos matematico-econômicos por academicos, ao longo do século,  mas  como estudo das politicas econômicas adotadas pelo Brasil,  no período  mais importante da sua historia, naquele em que, contra todos os prognósticos pessimistas, quintuplicou sua população e urbanizou 80% dela, transformando-se , por esforço proprio e algum auxilio externo,  de país subdesenvolvido em economia emergente em ascensão:  pensamento econômico brasileiro como  estudo das politicas brasileiras desenvolvimentistas, parte crucial  do nosso  esforço comum para a construção nacional e  projeção internacional do país.  Ver no site abaixo obras relevantes para  este projeto, disponíveis para download. Este site brasileiro tem o melhor formato possível, mea sententia.

 Http://www.funag.gov.br/biblioteca/index.php?option=com_docman&task=cat_view&gid=42.

cfr. THE POLITICAL ECONOMY OF BRAZILIAN FOREIGN POLICY NUCLEAR ENERGY, TRADE AND ITAIPU

05 HISTORIA DO PENSAMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO NO SECULO XX. BIBLIOGRAFIA ALEATÓRIA PRELIMINAR  

PROF. DR. DARCY CARVALHO, FEAUSP .

1.  [07/O6/2013]. LUCAS LOPES. MEMORIAS DO DESENVOLVIMENTO [entrevista], 346 páginas  Capitulo VII. Monetaristas e desenvolvimentistas, EUGENIO GUDIN. Ministro da Fazenda. 25 julho 1958. http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/6807/1129.pdf?sequence=1 

06 O PENSAMENTO ECONÔMICO DO BRASIL NO SÉCULO XX COINCIDE COM A HISTÓRIA DO PRIMEIRO SÉCULO DA ERA REPUBLICANA

A questão econômica e social básica enfrentada pelos economistas e planejadores brasileiros na fase inicial da Republica foi a de encontrar formas de substituir rapidamente a estrutura escravocrata da força de trabalho por mão-de-obra livre. A economia era ainda essencialmente agrícola e extrativista, com muitos centros populacionais incipientes e isolados, basicamente auto-suficientes e em níveis profundamente diferentes de possibilidades econômicas e densidades demográficas. O problema da abolição da mão-de-obra escrava e a sua substituição por uma força de trabalho livre tinha sido tema perene e polêmico de discussão e grave preocupação pública, por todo o século XIX, da chegada da Corte Portuguesa em 1808 à proclamação do regime republicano em 1889. A questão e crise do café e os esforços pela industrialização do país ocorrem balizados por duas grandes guerras mundiais (1914-18/1939-45), que alterariam definitivamente o panorama geopolítico, econômico  e demográfico do mundo, determinando novas linhas condicionantes  para o desenvolvimento econômico do Brasil, nos cinquenta anos seguintes. A industrialização, a acentuada urbanização e a transformação étnica, ocorridas no país, nos últimos cem anos,  estão indissoluvelmente ligadas à forte entrada de imigrantes europeus e asiáticos e ás intensas correntes migratórias internas que, partindo do Nordeste se dirigiram à Amazônia, ao Sudeste e ao Centro-Oeste, depois de meados do século, impulsionadas em parte pela transferência da Capital Federal. A partir dos anos 70, a economia do Brasil conhece forte processo de modernização, caracterizado pela diversificação industrial, construção e consolidação de extensa infraestrutura viária e energética, integração educacional e melhoria da qualidade de vida que atingiu níveis comparáveis ao dos países medianamente desenvolvidos. Todas estas transformações se fizeram sob o comando de governos na maior parte do tempo ditatoriais. A fase recente de economia liberal e consolidação democrática coincide com a intensificação de um processo mundial de intensa liberalização dos fluxos externos e movimentos de capital que impedem a aplicação  eficiente das  políticas econômicas  keynesianas, que caracterizaram a intervenção governamental no setor econômico até os anos noventa. O Brasil foi o último país do mundo a abolir o uso de mão de obra escrava e o fizemos há pouco mais de um século. Em cem anos, passamos de uma população diminuta, analfabeta, dispersa e essencialmente agrícola a um conglomerado humano de quase 200 milhões de pessoas. Todas estas transformações não ocorreram ao acaso, o Brasil desde as suas mais remotas raízes portuguesas foi sempre um país planejado. Uma história do pensamento econômico e social do Brasil deve necessariamente identificar os personagens  atuantes e as obras determinantes e relevantes que balizaram nossa evolução econômica nos primeiros 500 anos da nossa existência como entidade geopolítica.

07 O PENSAMENTO ECONÔMICO DO SÉCULO XIX, E O DOS SÉCULOS ANTERIORES, SÃO REFERÊNCIAS NECESSÁRIAS PARA O ESTUDO DO PENSAMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO DO SÉCULO XX, PERÍODO HISTÓRICO RECENTE, CARACTERIZADO POR POLÍTICAS ECONÔMICAS KEYNESIANAS E NEO-MERCANTILISTAS, QUE PROPORCIONARAM AO BRASIL UM SALTO ECONÔMICO ESPETACULAR NO PROCESSO AINDA EM ANDAMENTO DE EQUIPARAÇÃO ECONÔMICA E SOCIAL (CATCHING-UP) COM OS PAÍSES MAIS DESENVOLVIDOS DO MUNDO.
Cf. 
08 The Need to Rethink Development Economics Thandika MKANDAWIRE. United Nations Research Institute for Social Development 

"Up until the 1970s, problems of welfare and unemployment in the developed countries, and those of poverty and underdevelopment in the developing ones, were interpreted through the lenses of the corpus of knowledge recognized as Keynesian economics and “development economics” respectively. But the oil crisis, “stagflation” and subsequent indebtedness of the developing countries severely put to test the models and the theories that had underpinned their welfare and development policies.

Although there was little in common between the actual analytical content of Keynesian doctrine and that of Development Economics, the two approaches shared critical views of neoclassical economic theory, and the related acceptance of state intervention. They also had in common the understanding that the economy described by neoclassical economists was a special case”, and there were many other economies that could be “stylized” by entirely different models because they were characterized by different structural features. Furthermore, they shared the view that the state could play an important role in addressing these structural features, which often resulted in “market failures”. Both were induced by the need to solve policy problems and were not merely formal theoretical disciplines whose modelling was based on “real economies” trapped in a particular equilibrium (unemployment or underdevelopment) from which they had to be extricated. These positions opened them to attack from neoliberalism.